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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Uma homenagem ao Frei Damião de Bozzano - In Memoriam


Frei Damião de Bozzano
1898 -1997
Hoje, 5 de agosto, é o 103º aniversário de sua ordenação presbiterial

O Frei Damião nasceu como Pio Giannotti na aldeia de Bozzano, município de Massarosa, Toscana, Itália. Morou no Brasil entre 1931 e 1997, quando morreu em Recife. Presto minha homenagem ao Frei Damião e aproveito para contar uma expriência minha ligada a ele por volta de 1974 - 1975.     

Aniversário: 300 anos da Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição

Apesar de não ter estudos convencionais completos já que era fruto de um "home schooling" primitivo, portanto sem certificação, fui convidado pelo pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Coruripe, Alagoas, para dar aulas de inglês a todas as turmas do período noturno do Colégio Nossa Senhora da Cpnceição. Caiu do céu, o convite que chegou a mim por meio do meu pai e por sua vez por meio de um chefe dele. O meu nível de inglês era muito alto e assim passei nas entrevistas. Eram outros tempos.

O meu pai aproveitou a ideia de me deportar de casa em Maceió para tentar me salvar de uma tristeza profunda. Eu havia me apaixonado por uma linda comtemporânea que ao mesmo tempo, com uma impressionante reciprocidade de sentimentos também havia se apaixonado por um amigo meu. Rapaz bonito. Tudo bem. 

Parti para Coruripe quase forçado no ônibus da Real Alagoas, levando uma bagagem resumida e meus 114 quilos que nunca recuperei. Minhas experiências com meus alunos e uma bicicleta Barra Forte da Monark me curaram.    

O meu chefe, o padre, pessoa muito decente abriu as portas do colégio. Além do colégio, o padre ainda formava parte da direção do cinema local além de cuidadr da paróquia. Logo, o padre e eu desenvolvemos uma amizade incondicional. Explico o incondicional: ele era padre e eu era Testemunha de Jeová. 

Uma das condições do meu pai para permitir que eu saisse de casa para trabalhar fora era que eu ajudasse a fundar a congregação local de minha cidadezinha natal. Uma outra vantagem era que eu estaria na casa do meu avô, Alípio e o meu avô não me deixaria fazer besteira. Além do meu avô e da minha avó, tinha também a Tia Nazaré que cuidava de mim como filho e a grande quantidade primos.  Estava em casa. 

No final o padre intercambiávmos alguns favores. Se houvese alguma coisa importante na minha congregação eu comunicava e ele autorizava que chegasse mais tarde. Às vezes, ele programava uma atividade na Igreja Matriz e decidia liberar as turmas das primeira aulas. Mas me pedia para que ajudasse a não deixar os alunos sumirem. Ele dizia que aluno solto nas ruas era perigoso. Eu aceitava e conseguia manter todo mundo junto na praça na frente do colégio. 

Um dia, morreu uma aluna que morava no bairro do Pontal do Coruripe. O pontal na época era longe e não havia meio de transporte. Assim eu me voluntariei para conduzir os alunos até a casa da aluna. Os alunos juraram obedecer e seguir minhas ordens.  Os pais preocupados autorizaram os filhos. O padre disse que ir comigo era quase igual a ir com os anjos. Confio no professor. Fomos. Deu tudo certo. Foi a melhor experiência para vida de muitos dos alunos. Pelo menos a minha foi. 

Um dia o padre me chama no seu escritório. E diz que precisa de minha ajuda. Coruripe estava no roteiro das Santas Missões Populares do Frei Damião e ele precisava da ajuda de toda a equipe do colégio, da paróquia e quem mais aparecesse. Havia uma outra professora de linha protestante que recusou o convite. Ela até aceitaria mas o marido, ficou furioso. Finalmente chegou o dia. As aulas seriam suspensas, mas a presença nas aulas não estava dispensada. 

Conversei com meus alunos e bolamos um plano para ajudar. Tenho dificuldade de lembrar da multidão que invadiu Coruripe. Note que a escola fica colada à praça e em uma das extermidades se nota uma ladeira. A quantidade de gente que descia aquela ladeira era imensa. Tivemos que colocar a mão na massa para o sucesso  da missão. Depois que Frei Damião foi embora, eu pedi autorização para chegar mais tarde me comprometendo em dar as últimas duas aulas. Imagine a minha alegria, quando eu termino de falar em nossa pequena tribuna, olho para a porta de entrada e vi que a classe inteira estava na frente do local de reunião para me acompanhar até a escola.        
    
A praça: centro da vida de Coruripe

A praça das Reuniões, o Colégio e a Matriz no Alto


Em certa ocasião desci aquela ladeira com a minha bicicleta monark sem freio, não consegui fazer a curva e caí na praça. Fiquei quieto no chão. Escutei um grito: O professor morreu! Foi um pouco antes da aula. Perda total da bicicleta.



 Nota: o motivo desta publicação homenagem ao Frei Damião,que esá em proceso de beatificação, foi que encontrar a foto dele que aparece acima, procurei informações sobre a visita dele à cided de Coruripe. A INteligência Artificial atrealada ao Google me respondeu taxativamente: "Não existe registro de nenhuma visita do Frei Damião a Coruripe, Alagoas". Agora existe!    

domingo, 15 de setembro de 2024

Meu primeiro emprego: um hotel, uns náufragos e um navio grego

Antigo Hotel Beiriz: meu primeiro emprego. A porta de entrada continua no mesmo luigar. Hoje sede da Polícia Científica de Alagoas 

Foi acrescentado uma proteção para os veículos 

Aviso: Série Memórias / Texto longo

Fui informado que o prédio acima, hoje é a sede da Perícia Oficial de Alagoas sob a tutela da Poiícia Civil do Estado. Mas para mim este prédio abriga grandes lembranças do final da adolescência e começo da idade adulta. 

Chuto que andava na casa dos 18 anos quando consegui um emprego nele. Fui contratado como recepcionista.Trabalhei no hotel em todos os horários. Das 06h às 14h, das 14h às 23h e das 23h às 6h. Era para ganhar experiência. Eu gostava do horário das 14h às 23h porque me dava mais oportunidade de interagir com os hóspedes. Eu não me lembro de nenhum hóspede ruim. Mas se forço a memória um pouco ainda me lembro de uns 15 nomes dos bons hóspedes. 

Clientes que marcaram

Susana Echeverría é o primeiro. Uma argentina linda, para os meus olhos, que fazia parte de uma equipe de vendas. Não me pergunta vendas de quê. Logo que chegou notei que ela estava doente. Parecia uma gripe. Depois do check-in, numa hora mais tranquila na recepção, fui à cozinha e pedi um chá alagoano quente, estilo chá da vovó, com um comprimido. Talvez uma melhoral. 

Levei o chá pessoalmente. Ela adorou, agradeceu e melhorou. Assinei a comanda. Muita gente desconfiou das minhas intenções e lembrou que hóspedes não era, para o meu bico. Confesso que eu estava apaixonado pela minha ciiente de Buenos Aires. 

Outro cliente, desta vez um homem para que elimine-se qualquer dúvida, se chamava  Earl Boden, um capitão de navio, de nacionalidade hondurenha e que apesar disso não falava espanhol. 

Eu estava no meu intervalo, quando a chefia me chamou para atendê-lo porque não havia ninguém que falasse inglês naquele momento ou que entendesse o inglês caribenho do Mr Boden.  Ele preencheu a ficha, entreguei-lhe a chave e o levei ao apartamento. O elevador era daqueles que só era dirigido por um ascensorista. Eu era ascensorista também além de também atender à mesa telefônica à noite (PABX) quando entrava chamada. 

Ele me disse que precisava sair cedo para pegar o avião da manhã para Recife. Ele contou que estava em viagem de trabalho. Ele deveria ter assumido o comando de um navio ancorado no Recife mas como o voo com tantas escalas tinha sido longo, ele dormiu e só se acordou com avião partindo para Maceió. Mais tarde o Sr. Bodem desceu, veio à recepção e conversamos um pouco mais. Eu queria saber como um nativo de Honduras é nativo do inglês. 

Daí ele deu uma aula sobre a costa caribenha de Honduras e a existência de comumidades na Costa de negros de língua inglesa e sobre uma ilha hondurenha chamada Roatan onde a maioria da população fala inglês (ou falava). 

Náufragos no hotel
 
En certa ocasião, no turno da madrugada, escutei apitos insistentes de um navio no porto. Era um sinal de SOS. O hotel não era tão perto do porto mas o mar ficava no final ou começo da rua. 

O Hotel estava com boa lotação. Só havia dois apartamentos livres. O chamado de SOS do navio parou. Pensei que estivesse tudo resolvido. Mas por volta das 2h da manhã chegam veículos do Corpo de Bombeiros, não eram caminhões de incêndio, eram mais carros oficiais do tipo de transporte. O oficial me pede gentilmente mas dando ordem para arranjar apartamentos para 15 pessoas. Argumentei que não havia. Só tinha dois duplos. 

O oficial disse que eu me virasse porque eles poderiam ficar até na receção. O meu companheiro de recepção queria lavar a mão e sair fora. 
 
Pedi para ver a galera. Eram 15 "náufragos", 14 gregos e um palestino com algum documento egípcio chamado Mike Afifi, residente na Itália. Conversei com o Afifi, definitavamente o líder,  que me disse que eles tinham dinheiro para pagar, que não precisava de luxo, que podiam dormir até no chão. Eles só precisavam de aconchego, lençóis quentes porque todos estavam com frio e pelo menos dois precisariam de cuidados médicos na manhã seguinte. 
 
Enquanto conversávamos, a solução se apresentou à minha cabeça. Eu tenho dois quartos. Posso tirar as camas e colocar colchões. Aceitam? Daí corri para a recepção e liguei para o dono do hotel, o português Carlos da Silva Nogueira  avisando que eu iria fazer essa operação e que os "náufragos" tinham dinheiro e queria instrução sobre como  deveria cobrar de maneira que tivessem direito ao café-da manhã. Instruído pelo Sr. Nogueira sobre o café-da-manhã e  liberado, executei a ação. 

O Mike falava um grego fantástico e fez que com em meia hora, todos estivessem nos quartos. Todos de cueca, roupa secando onde era possível, e mais interessante, dinheiro em dólar e libras esterlinas secando nos espaços vazios do quarto. 

O dono do hotel veio excepcionalmente cedo para tomar cafe-da-manhã e ver o estrago nas instalações. Os meus 15 hóspedes desceram super bem comportados, cada um vestido como pôde, tomaram café e seguiram, para um lugar combinado, onde "liderei" uma curta expedição até uma loja de roupa popular que por casualidade pertencia a um grego. Voltamos ao hotel todos bem vestidos e prontos para várias cessões de colocar as coisas em pratos limpos. 

Os nossos hóspedes naufragaram na tentativa de chegar à terra, escondidos, secretamente antes do navio ter realmente aportado. O navio estava fundeado - quer dizer 'ESTACIONADO" em alto mar que no caso do porto de Maceio nem parece ser tão "alto assim". Colocaram um daqueles barcos que o navio carrega como segurança, superlotaram o barco e partiram em direção à Praia da Avenida. O mar estava agitado, o barco virou e eles só se salvaram porque eram marinheiros. Daí o pedido de SOS, e a comumincação às autoridades sobre o ocorrido. 

A primeira visita oficial da manhã foi da Polícia Federal. Lembremos que o ano era 1975, pode ser um ano a mais ou menos, e o presidente da República era o general Ernesto Geisel.  Os agentes queriam saber quem autorizou a hospedagem? Eu expliquei que meu trabalho era hospedar. E que os bombeiros trouxeram os hóspedes vítimas e me mandaram hospedar. Lembrei que a obrigação do hotel é receber, hospedar e dar conforto ao hóspede especialmente em caso de emergência humanitária.  

Navio MS Master Dáskalos (IMO 5228516) carga geral, construído em 1959 Fem Riejeka, Croácia, para a Grécia. Desmontado em Kaoshiung, Taiwan 1982. Fonte foto ShipSpotting

Em seguida chegaram o agente do navio da Agência Wilson Sons, um oficial do navio e uma equipe médica que tinha convênio com a agência. Até então eu nem sabia que existia agente de navio. A partir daí o grupo do que nesse  momento já eram os meus hóspedes e eu já estava comprando todas a brigas para defendê-los, começou a ser dividido. 

Quatro foram internados entre eles o Mike Afifi, um rapaz de uns 22 anos chamado Stávros Polyzópoulos. Stávros sigifica Cruz. Não lembro do nome dos outros dois porque a internação deles foi curta. 

O Stávros ficou uns 15 dias e depois da alta, foi levado para Recife de onde voou para a Europa. Mike Afifi ficou mais de um mês tempo que aproveitou para ficar bom e comprar todas as brigas possíveis com a agência de navegação e o capitão. Desde o primeiro dia de internação, eu acompanhava os marujos no hospital e logo se incorporaram outros alagoanos voluntários. Destaco o José Costa e a Alice Mantovani.   

Tudo pelo Mike
 
Como o Mike era líder, o capitão o despediu.  Por contrato, além da recisão, o marinheiro receberia uma passagem aérea para o país de origem. O Mike Afifi considerava que o país de origem seria a Itália onde fora contratado. Mas o apitão queria mandá-lo para o Egito onde ele residira como refugiado. Esta quebra-de-braço era perigosa porque ele teria perdido o direito de residência após sair do país e possivelmente seria preso para futura deportação já que a vida de palestimo não era fácil naquela época e continua não sendo.  

Como o Mike iria perder de qualquer maneira, eu, à revelia do hotel e já por conta própria, fui à Agência Central dos Correios e enviei um telegrama ao Presidente Ernesto Geisel pedindo ajuda e contando a situação do Mike Afifi. Para suprersa de todos, um pouco antes do prazo do embarque forçado do Mike, chegou uma ordem superior, ninguém sabe de quem, dizendo que o estrangeiro fosse enviado para o país que ele quizesse e que a situação fosse resolvida imediatamente. Foi uma experiência inesquecível. Obrigado presidente! 

Assim no dia combinado, o Mike foi escoltado pela Polícia Federal para o Aerporto Internacional dos Guararapes de onde embarcou para Roma com destino a Pescara na Itália. Me correspondi com Mike e Stávros por um bom tempo depois. Continuei no Hotel Beiriz por um tempo. Até hoje agradeço a oportunidade dada pelo proprietário do Hotel, o Senhor Carlos da Silva Nogueira.   


Era uma felicidade colar o sticker do hotel na maleta dos hóspedes. Era um ritual (Flickr)

Nota 

O Hotel Beiriz funcionou entre 1958 e 1990 na Rua João Pessoa, nº 290, Maceió como uma iniciativa do empresário português Carlos da Silva Nogueira (In Memoriam). A tradição hoteleira  foi continuada por sua filha Mariza e o esposo, o médico Ismar Malta Gatto com a Rede Brisa de Hotéis: Brisa Praia, Brisa Jatiúca e Brisa Tower. Informações sobre a hotelaria de Maceió no período pesquisada no trabalho acadêmico de Juliana Costa Melo da UFAL