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sábado, 31 de janeiro de 2026

Dois dias para comemorar Iemanjá e a cultura afro-brasileira em Foz do Iguaçu

 Jubileu da Festa de Iemanjá em Foz do Iguaçu

A Festa de Iemanjá em Foz do Iguaçu comemora 50 anos. E 50 anos também se chama Jubileu! Oficialmente a Festa de Iemanja ocorre no dia 2 de fevereiro, que este ano cai na segunda-feira (lunes). Desde 2023, a Festa de Iemanjá é parte do Calendário Oficial de Eventos de Foz do Iguaçu segundo a Lei Ordinária nº 5.209 de 14 de fevereiro de 2023. Por isso a Festa de Iemanjá este ano ganha um dia extra: o domingo, dia primeiro. Confira a programação do domingo acima. É uma programação artística e cultural com destaque para a exposição "Memórias de Vovó Benedita e a Festa de Iemenjá". 

O Blog de Foz reforça o convite a todos aqueles e aquelas que estiverem em Foz do Iguaçu, moradores ou turistas. O convite é extensivo a todos os moradores da Região Trinacional (RE-TRI). Vai ser um bom dia para escutar e  ver apresentações de afoxé, maracatu, ginga, capoeira (dança, música e luta), muita repercussão. A festa no domingo acontece junto com a Feirinha da JK.  


Na segunda-feira, a atividadae tradicional e oficial é a Procissão em Carreata em direção ao Porto Meira. A concentração para a carreata começa às 13h30 na Praça da Paz. Como todos os anos, a carreata termina às margens do rio Iguaçu, onde há embarque no barco Kattamaram que leva os participantes até o encontro das águas dos rios Iguaçu e Paraná onde acontece a oferenda cerimoniosa de flores em agradecimento por tuodo de bom que aconteceu ao longo de 2025 e com o pedido de Paz, Amor, Trabalho, Prosperidade no restante de 2026 para todos os presentes e para toda a Região Trinacional.

Duas Notas: confira a programação cultural da segunda-feira a partir das 17h30. Apresentações de percussão, capoeira e da Escola de Samba Mocidade do Porto Meira. É sempre bom escutar um samba enredo. Boa celebração a todos. Que as guerras sucumbam  e a Paz Prevaleça. Axé!    

       

Momentos no Kattamaram em 2025: flores para Iemanjá

domingo, 15 de setembro de 2024

Meu primeiro emprego: um hotel, uns náufragos e um navio grego

Antigo Hotel Beiriz: meu primeiro emprego. A porta de entrada continua no mesmo luigar. Hoje sede da Polícia Científica de Alagoas 

Foi acrescentado uma proteção para os veículos 

Aviso: Série Memórias / Texto longo

Fui informado que o prédio acima, hoje é a sede da Perícia Oficial de Alagoas sob a tutela da Poiícia Civil do Estado. Mas para mim este prédio abriga grandes lembranças do final da adolescência e começo da idade adulta. 

Chuto que andava na casa dos 18 anos quando consegui um emprego nele. Fui contratado como recepcionista.Trabalhei no hotel em todos os horários. Das 06h às 14h, das 14h às 23h e das 23h às 6h. Era para ganhar experiência. Eu gostava do horário das 14h às 23h porque me dava mais oportunidade de interagir com os hóspedes. Eu não me lembro de nenhum hóspede ruim. Mas se forço a memória um pouco ainda me lembro de uns 15 nomes dos bons hóspedes. 

Clientes que marcaram

Susana Echeverría é o primeiro. Uma argentina linda, para os meus olhos, que fazia parte de uma equipe de vendas. Não me pergunta vendas de quê. Logo que chegou notei que ela estava doente. Parecia uma gripe. Depois do check-in, numa hora mais tranquila na recepção, fui à cozinha e pedi um chá alagoano quente, estilo chá da vovó, com um comprimido. Talvez uma melhoral. 

Levei o chá pessoalmente. Ela adorou, agradeceu e melhorou. Assinei a comanda. Muita gente desconfiou das minhas intenções e lembrou que hóspedes não era, para o meu bico. Confesso que eu estava apaixonado pela minha ciiente de Buenos Aires. 

Outro cliente, desta vez um homem para que elimine-se qualquer dúvida, se chamava  Earl Boden, um capitão de navio, de nacionalidade hondurenha e que apesar disso não falava espanhol. 

Eu estava no meu intervalo, quando a chefia me chamou para atendê-lo porque não havia ninguém que falasse inglês naquele momento ou que entendesse o inglês caribenho do Mr Boden.  Ele preencheu a ficha, entreguei-lhe a chave e o levei ao apartamento. O elevador era daqueles que só era dirigido por um ascensorista. Eu era ascensorista também além de também atender à mesa telefônica à noite (PABX) quando entrava chamada. 

Ele me disse que precisava sair cedo para pegar o avião da manhã para Recife. Ele contou que estava em viagem de trabalho. Ele deveria ter assumido o comando de um navio ancorado no Recife mas como o voo com tantas escalas tinha sido longo, ele dormiu e só se acordou com avião partindo para Maceió. Mais tarde o Sr. Bodem desceu, veio à recepção e conversamos um pouco mais. Eu queria saber como um nativo de Honduras é nativo do inglês. 

Daí ele deu uma aula sobre a costa caribenha de Honduras e a existência de comumidades na Costa de negros de língua inglesa e sobre uma ilha hondurenha chamada Roatan onde a maioria da população fala inglês (ou falava). 

Náufragos no hotel
 
En certa ocasião, no turno da madrugada, escutei apitos insistentes de um navio no porto. Era um sinal de SOS. O hotel não era tão perto do porto mas o mar ficava no final ou começo da rua. 

O Hotel estava com boa lotação. Só havia dois apartamentos livres. O chamado de SOS do navio parou. Pensei que estivesse tudo resolvido. Mas por volta das 2h da manhã chegam veículos do Corpo de Bombeiros, não eram caminhões de incêndio, eram mais carros oficiais do tipo de transporte. O oficial me pede gentilmente mas dando ordem para arranjar apartamentos para 15 pessoas. Argumentei que não havia. Só tinha dois duplos. 

O oficial disse que eu me virasse porque eles poderiam ficar até na receção. O meu companheiro de recepção queria lavar a mão e sair fora. 
 
Pedi para ver a galera. Eram 15 "náufragos", 14 gregos e um palestino com algum documento egípcio chamado Mike Afifi, residente na Itália. Conversei com o Afifi, definitavamente o líder,  que me disse que eles tinham dinheiro para pagar, que não precisava de luxo, que podiam dormir até no chão. Eles só precisavam de aconchego, lençóis quentes porque todos estavam com frio e pelo menos dois precisariam de cuidados médicos na manhã seguinte. 
 
Enquanto conversávamos, a solução se apresentou à minha cabeça. Eu tenho dois quartos. Posso tirar as camas e colocar colchões. Aceitam? Daí corri para a recepção e liguei para o dono do hotel, o português Carlos da Silva Nogueira  avisando que eu iria fazer essa operação e que os "náufragos" tinham dinheiro e queria instrução sobre como  deveria cobrar de maneira que tivessem direito ao café-da manhã. Instruído pelo Sr. Nogueira sobre o café-da-manhã e  liberado, executei a ação. 

O Mike falava um grego fantástico e fez que com em meia hora, todos estivessem nos quartos. Todos de cueca, roupa secando onde era possível, e mais interessante, dinheiro em dólar e libras esterlinas secando nos espaços vazios do quarto. 

O dono do hotel veio excepcionalmente cedo para tomar cafe-da-manhã e ver o estrago nas instalações. Os meus 15 hóspedes desceram super bem comportados, cada um vestido como pôde, tomaram café e seguiram, para um lugar combinado, onde "liderei" uma curta expedição até uma loja de roupa popular que por casualidade pertencia a um grego. Voltamos ao hotel todos bem vestidos e prontos para várias cessões de colocar as coisas em pratos limpos. 

Os nossos hóspedes naufragaram na tentativa de chegar à terra, escondidos, secretamente antes do navio ter realmente aportado. O navio estava fundeado - quer dizer 'ESTACIONADO" em alto mar que no caso do porto de Maceio nem parece ser tão "alto assim". Colocaram um daqueles barcos que o navio carrega como segurança, superlotaram o barco e partiram em direção à Praia da Avenida. O mar estava agitado, o barco virou e eles só se salvaram porque eram marinheiros. Daí o pedido de SOS, e a comumincação às autoridades sobre o ocorrido. 

A primeira visita oficial da manhã foi da Polícia Federal. Lembremos que o ano era 1975, pode ser um ano a mais ou menos, e o presidente da República era o general Ernesto Geisel.  Os agentes queriam saber quem autorizou a hospedagem? Eu expliquei que meu trabalho era hospedar. E que os bombeiros trouxeram os hóspedes vítimas e me mandaram hospedar. Lembrei que a obrigação do hotel é receber, hospedar e dar conforto ao hóspede especialmente em caso de emergência humanitária.  

Navio MS Master Dáskalos (IMO 5228516) carga geral, construído em 1959 Fem Riejeka, Croácia, para a Grécia. Desmontado em Kaoshiung, Taiwan 1982. Fonte foto ShipSpotting

Em seguida chegaram o agente do navio da Agência Wilson Sons, um oficial do navio e uma equipe médica que tinha convênio com a agência. Até então eu nem sabia que existia agente de navio. A partir daí o grupo do que nesse  momento já eram os meus hóspedes e eu já estava comprando todas a brigas para defendê-los, começou a ser dividido. 

Quatro foram internados entre eles o Mike Afifi, um rapaz de uns 22 anos chamado Stávros Polyzópoulos. Stávros sigifica Cruz. Não lembro do nome dos outros dois porque a internação deles foi curta. 

O Stávros ficou uns 15 dias e depois da alta, foi levado para Recife de onde voou para a Europa. Mike Afifi ficou mais de um mês tempo que aproveitou para ficar bom e comprar todas as brigas possíveis com a agência de navegação e o capitão. Desde o primeiro dia de internação, eu acompanhava os marujos no hospital e logo se incorporaram outros alagoanos voluntários. Destaco o José Costa e a Alice Mantovani.   

Tudo pelo Mike
 
Como o Mike era líder, o capitão o despediu.  Por contrato, além da recisão, o marinheiro receberia uma passagem aérea para o país de origem. O Mike Afifi considerava que o país de origem seria a Itália onde fora contratado. Mas o apitão queria mandá-lo para o Egito onde ele residira como refugiado. Esta quebra-de-braço era perigosa porque ele teria perdido o direito de residência após sair do país e possivelmente seria preso para futura deportação já que a vida de palestimo não era fácil naquela época e continua não sendo.  

Como o Mike iria perder de qualquer maneira, eu, à revelia do hotel e já por conta própria, fui à Agência Central dos Correios e enviei um telegrama ao Presidente Ernesto Geisel pedindo ajuda e contando a situação do Mike Afifi. Para suprersa de todos, um pouco antes do prazo do embarque forçado do Mike, chegou uma ordem superior, ninguém sabe de quem, dizendo que o estrangeiro fosse enviado para o país que ele quizesse e que a situação fosse resolvida imediatamente. Foi uma experiência inesquecível. Obrigado presidente! 

Assim no dia combinado, o Mike foi escoltado pela Polícia Federal para o Aerporto Internacional dos Guararapes de onde embarcou para Roma com destino a Pescara na Itália. Me correspondi com Mike e Stávros por um bom tempo depois. Continuei no Hotel Beiriz por um tempo. Até hoje agradeço a oportunidade dada pelo proprietário do Hotel, o Senhor Carlos da Silva Nogueira.   


Era uma felicidade colar o sticker do hotel na maleta dos hóspedes. Era um ritual (Flickr)

Nota 

O Hotel Beiriz funcionou entre 1958 e 1990 na Rua João Pessoa, nº 290, Maceió como uma iniciativa do empresário português Carlos da Silva Nogueira (In Memoriam). A tradição hoteleira  foi continuada por sua filha Mariza e o esposo, o médico Ismar Malta Gatto com a Rede Brisa de Hotéis: Brisa Praia, Brisa Jatiúca e Brisa Tower. Informações sobre a hotelaria de Maceió no período pesquisada no trabalho acadêmico de Juliana Costa Melo da UFAL





quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Minhas memórias de Maceió estão afundando pouco a pouco


Porto de Maceió observado de um mirante no Farol. Um dia trouxe uma viajante francesa aí sem saber que ela era a atriz Jeanne Moreau (1928-2017). Só descobri, no outro dia, no Jornal de Alagoas, que ela era a estrela de um filme de Cacá Diegues que começaria a rodar naquela manhã no interior (foto do site JB na Estrada)   

As minhas memórias de Maceió estão literalmente afundando. Afundando com os bairros de Bebedouro, Bom Parto, Pinheiro, Gruta de Lourdes, Mutange e outros.  O centro do mundo onde eu me criei se chamava Ponta Grossa, um antigo sitio agrícola de alguma família que com o passar do tempo foi se tornando "bem público". 

Primeiro os padres ganharam um extensa área de terra onde construíram um igreja e uma casa de caridade chamada de Casa dos Pobres. As terras dos padres ia do local onde ainda está (eu acho) até a beira da Lagoa Mundaú. Beira da Lagoa é uma frase forte e tem muitos significados. 

No tempo da Segunda Guerra Mundial, depois que o Brasil entrou na guerra, os Estados Unidos, o país, instalou uma base militar que se chamou US Navy Air Facility Maceió em uma área de terra que ia da Beira da Lagoa até o limite com as terras da Casa dos Pobres. Uma extensa área alagadiça foi aterrada dando origem ao que na minha época eu via como o Vergel do Lago. Nessa área do Vergel os americanos construíram um dique que adentrava a Lagoa para receber aviões da USNAV NAF.  Hidroaviões civis já aquatizavam  em diferentes pontos da Lagoa desde os anos 1920. 


Como o dique do Vergel era um de meus lugares preferidos, me lembro de uma enorme rampa de madeira que possibilitava o desembarque de carros que chegassem até aí em barcos ou balsas com destino à base militar. Esta rampa de madeira podia ser levantada para impedir a entrada de veículos inimigos. Ainda cheguei ver as correntes que levantavam essa "porta". 

Mas independente do que os militares fizessem com a "Pista do Vergel", ela serviu para meu primeiro acidente de bicicleta. Como a pista era longa, pedalei  com todas as minhas forças para atingir grande velocidade. Meu plano era chegar até o fim da rampa e freiar derrapando lateralmente. A intenção era mostrar minha proeza para o público presente especialmente as meninas. Como a bicicleta não era minha, eu não conhecia os truque dos freios e terminei atraindo a atenção de todos presentes na pista que queriam ver se eu eu tinha morrido. O pior é que esta não foi a única vez que me esborrachei no chão de bicicleta. Na última vez eu já tinha passado dos 40 anos desta vez na Serra da Bodoquena. Bem longe da minha Lagoa nativa.  

Ainda nas proximidades da Pista do Vergel os americanos construíram alojamentos. Não ouso dizer quantas casas eram. Com o fim da guerra, os Estados Unidos passaram a infraestrutura para o Brasil, que passou para  Alagoas que passou ao Município  que repassou as casas em um projeto de habitação popular. Me lembro com carinho da arquitetura daquelas pequenas casas. Tinha cara de  Filipinas, Samoa ou Tuvalu. 

Desde essa época também, já aterrizavam aviões na parte alta da cidade na localidade de Tabuleiro do Pinto. Com a guerra e a presença de submarinos alemães nas águas os americanos investiram muito também no no Tabuleiro do Pinto onde funcionou uma base para BLIMPS (dirigíveis) anti-submarinos. Era próxima à área onde já funcionava o antigo Aerporto da PANAIR, Aeroporto Campos dos Palmares, atual  Aeroporto Zumbi dos Palmares. Na época era importante ligar a base da Lagoa com a base do Tabuleiro. A estrada que ligava as duas pontas deu origem à Rua Santo Antônio. 

Além de ligar os dois pontos estratégicos e logísticos para a aviação da cidade e do Brasil, a Rua Santo Antônio serviu de pista para minhas primeiras caminhadas no mundo. 

Sem avisar nada a ninguém, um dia sumi de casa e fui andando sozinho desde uma interseção da Rua Santo Antonio até o Palácio do Governo na Praça dos Martírios e voltei. Em casa, com todo mundo preocupado, fui recebido com alívio e uma surra para nunca mais repetir aquilo.  

Além da Casa dos Pobres, a  Rua Santo Antônio tinha o Bar da Irmã Terezinha, o Colegio Municipal, o Cine Lux (onde assisti filmes como Godzila, Dio come ti Amo),  uma loja chamada Casa Brasileira, uma funerária de um fúnebre conhecido, estava o prédio da Saúde Pública, era parecido como uma UBS, a Praça e a Igreja da Graça, no bairro da levada (foi no brejo da Levada que eu observei meu primeiro Tiziu) ,  atravessava o Mercado Municipal, os trilhos do trem e chegava até a Praça dos Martírios onde estava o Palacío dos Martírios ou Palácio do Governo antiga sede do Governo de Alagoas.  

Da Praça dos Martírios em frente

Da Praça dos Martírios, seguindo em frente, uma ladeira levava ao bairro do Farol que está na lista dos afetados pelo afundamento causado pelo espaço vazio deixado pela mineração da sal-gema. Logo depois dessa ladeira,  havia a Igreja Assembleia de Deus do Pastor Barros. O pastor Barros era alvo de meu pai, do Robson e do Dogival, este último pastor adventista em disputas religiosas verbais que me pareciam verdadeiras brigas de galo. Eu sonhava em poder organizar minhas próprias batalhas. 

Bem mais adiante continuando a avenida que substitui a rua Santo Antonio rumo ao Tabuleirol estava o Hospital dos Usineiros, que hoje foi evacuado por causa do afundamento. Hoje o Hospital mudou de nome e um dos últimos nomes pelo que vi foi Hospital do Agronegócio da Cana de Açucar. Mudança de nome é mudança de nome! Um dos ambientes deste hospital se chamava Sanatório, um local visto com medo e desconfiança pelas crianças porque a maioria dos pacientes da casa sofriam de turberculose e tuberculose matava. Me lembro da Inês, sendo internada lá e o filho dela, o Everaldo passando uns dias na casa de minha família. Alguns conhecidos não voltaram do hospital.


Lagoa e barreira - área minerada sob meus insgnificantes protestos

Da Praça dos Martírios à esquerda

Voltando à Praça dos Martírios virando à esquerda dela estava a Rua Hermes da Fonseca. Esta rua levava ao Bebedouro.  Pelo menos uma vez por ano ainda sonho que estou no Bebedouro, ou na frente de algum casarão com histórias que até hoje desconheço. Uns casarões estavam entre a rua e o banhado da Lagoa. Outros estavam no lado oposto, frente para a rua e fundos para as "barreiras". 


Antiga Casa de Repouso Dr. José Lopes

Barreira é outra palavra marcante e um dos detalhes da geologia complicada do nordeste. Esse encontro entre mar e barro é interessante. O que é barro? De vez em quando dávamos enormes pernadas em direção ao Bebedouro, eu e meus irmãos, às vezes minha mãe ia junto. É no Bebedouro onde o rastro do afundamento atual se vê com maior violência. Até a clínica do Dr. José Lopes, vejo fotos, foi evacuada. A clínica psiquiátrica lembrava um paraíso.

Um prédio de estilo clássico no meio de uma vegetação frondosa, bem cuidada, com jardins, com lago e gansos. Ver os pacientes de branco naquele paisagem na minha cabeça de oito anos, eu enxergava o paraíso, céu. Uma pessoa querida era internada neste estabelecimento pelo menos uma vez por ano. Quando não havia vaga no Dr José Lopes e ela era levada para casas de arquitetura normal, eu sentia que o estabelecimento já era parte da família das cadeias e purgatórios.  

A Lagoa 

No meu círculo cultural e social a lagoa era lagoa e só. Mas hoje se destacam três palavras em relação a ela: Lagoa, Laguna e Lago. Laguna seria o termo técnico por ser um corpo de água salobra por encontrar-se com o mar. Mas para mim ela é lagoa e pronto. No tempo dos americanos, ela aparecia nos mapas como Lagoa do Norte. Prevaleceu o nome Lagoa Mundaú. Uma das características da lagoa é a lama, escura e com um cheiro forte. Aquela lama é o berço do sururu. Um marisco ou que dentro da lama forra o fundo da lagoa. Andando descalço na lagoa a com na altura do joelho a gente sentia a lama e as partículas das cascas do sururu especialmente quando elas entravam nos pés. O próximo passo era abaixar e tentar pegar com as mãos a maior quantidade de lama possível. Trazê-la para fora e colocar numa bolsa, lata, saco. 

Entre o Mar e a Lagoa: Ponta Grossa à direita rumo sul (Fonte da foto). Meus primeiros 20 anos rodando neste miolo

Depois todo sururu trazido para fora tinha que ser lavado. Aquele sururu era comida da boa, barato, grátis, forte e muito gostoso. Era o seguro comida de toda a população pobre. Minha família não era sururuzeira. A gente, minha mãe, irmãos. tias só organizava expedições à Lagoa quando a situação ficava um pouco difícil.

Mas muita gente da beira da lagoa vivia só de sururu e havia como continua havendo hoje graças a Deus, uma divisão do trabalho do sururu: há quem tire, há quem lave, há quem carregue e as  "despenicadeiras". Geralmente são mulheres as depeniqueiras. Mas há bons depeniqueiras. E há as crianças. Eu era razoavelmente um bom depenicadeiro mirim. Era uma festa. O sururu é um produto de mão de obra intensiva. Além de depenicar ainda há o verbo descascar. 

Nessa época o sururu era comida de pobre. Pouco a pouco o sururu foi ficando mais raro. A lagoa sofria de uma espécie de mau olhado do governo. Começaram os ataques à lagoa na forma de aterro. Eram aterros que avançavam sobre a lagoa para todos os lados e por fim por volta de 1974 começaram as obras para a exploração da sal-gema, começou a poluição e começaram os problemas da lagoa. É como se a lagoa tivesse perdido seu lugar no coração dos alagoanos de municipios vizinhos da lagoa. E agorinha falam que sururu pode ser extinto

A chegada da sal-gema, foi o símbolo de minha desistência de continuar coexistindo em Maceió com pessoas que viam no ataque à natureza da Lagoa e lagoas, rios como progresso e garantia do futuro.Para mim a Lagoa Mundaú é o símbolo global. Continúo assistindo anúncios de obras que trarão progresso no "engordamento" de praias, na especulação imobiliária global quer à beira mar quer no interior, o desmatamento, os aterros, canalização de rios e na surdina o lobby internacional para a liberação da mineração "sustentável" do fundo do mar. A Noruega já liberou a mineração em parte do Ártico e a pequena Nauru quem diria está sendo usada como testa de ferro para a liberação desta "salgemização" global. Vai ser o fim da picada e motivos para mais conflitos! 

Assista esta vídeo-aula para entender o afundamento (colapsamento / rebaixamento) de Maceió

Nota:

Este texto foi escrito longe de Alagoas para pessoas que não estão em Alagoas. Assim rogo aos conterrâneos que perdoem qualquer imbecilidade inevitável. São memórias de infância assim não possuem necessidade de ter qualquer rigor científico, jornalístico ou acadêmico. Mas tem muito coração. Os lugares que cito são parte de mim. Faltei mencionar a Levada, a Vila Kennedy, a Coreia, o Trapiche e o Pontal da Barra. Da para ver que sou mais Lagoa do que mar. Obrigado e saudações

terça-feira, 1 de abril de 2014

Presidente da Romênia em visita a Foz do Iguaçu: 1992 ano das grandes visitas

Presidente da Romênia Ion Iliescu em Foz do Iguaçu (1992), entrevista comigo e a jornalista Susana Klein 
do HOJE, Cascavel
      

Me deparei com uma nota em site romeno que anunciava a morte do ex-presidente da Romênia Ion Iiescu. A nota dizia que o ex-presidente havia morrido vítima de um acidente cárdio-vascular. Fiquei triste porque quando presidente, Iliescu visitou Foz do Iguaçu e eu tive o privilégio de entrevistá-lo. Imediatamente, lembrei-me da foto da entrevista. Postei a foto e já ia repercutindo quando descobri que a noticia era falsa. Parece que um grupo de jovens lançou a noticia por brincadeira. Haviam até colocado uma foto super oficial do presidente onde se via as datas de nascimento e morte do político de 84 anos. Ainda bem que não engrossei o coro dos que anunciavam a morte. Mas mesmo assim decidi manter a publicação avisando que a morte era falsa. Como sempre, todas as visitas de autoridades são famosas pela segurança. No caso da visita de Iliescu a Foz do Iguaçu durante a Rio-92, tentei várias vezes abordar a comitiva, porém  a segurança não deixava. Até que em certo momento, decidi, ir ao banheiro. Fui. Ao sair me encontro com o presidente que entrava e passamos juntos pela porta. Aí eu perguntei se ele poderia falar comigo depois ao que ele disse que sem dúvida. "assim que saísse do banheiro". Tendo furado o esquema, fiquei meio de lado e quando ele saiu do banheiro já viemos conversando até o lugar onde estava a imprensa. Pode-se ver que, na foto, não há um grupo de jornalistas ao nosso redor. A maioria é segurança romena. A exceção é a jornalista Susana Klein, logo em frente, que desconfiou da minha ida ao banheiro e foi atrás.