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| La Trinidad de los Barqueros (Trindade dos Barqueiros) - Escultura policromada da Redução de Trinidad (Paraguai), século XVIII |
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| La Trinidad de los Barqueros (Trindade dos Barqueiros) - Escultura policromada da Redução de Trinidad (Paraguai), século XVIII |
Foi-lhes tirada a ilha paradisíaca, mas não o espírito de luta e de reafirmação da sua identidade como povo indígena Mbya Guarani. Esta é a história dos membros da comunidade Pindó, em San Cosme y Damián, Itapúa, narrada por um de seus principais protagonistas, o poeta, escritor, professor e jornalista indígena Brigido Bogado, fundador da primeira escola indígena da região*
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| Professor Brigido Bogado sob uma foto que lhe rende homenagem na escola que ele fundou. Foto de Desirée Esquivel co-fundadora do El Otro País |
Era extensa a ilha Jasy retã, na região de Itapúa, onde hoje fica a grande hidrelétrica do mesmo nome, margeada pelo majestoso, pacífico e às vezes terrível rio Paraná. Lá, o povo indígena Mbya Guarani vivia pacificamente e sem muitas preocupações.
O rio Paraná oferecia peixes abundantes e variados. A densa selva que então existia forneceu seus frutos, sua rica fauna, os remédios necessários para equilibrar a alma e o corpo, porque como diziam os opygu'a (líderes religiosos), as doenças vêm nos alertar sobre a falta de harmonia, do desequilíbrio entre a alma e o corpo.
A ilha Jasy retã (ou Yacyretá, como se escreve oficialmente, mantendo a antiga grafia do guarani, que significa 'Terra da Lua') era como a Yvy Mara'e'y, a mítica Terra sem Mal, para os habitantes Mbya , aqueles que andavam nus e também seminus, porque na mente e na alma dos Mbya não havia maldade, não havia malícia ou ideia pecaminosa de andar sem roupa. Para nós, mostrar o corpo é algo natural. O corpo tem um propósito específico, reproduzir e permitir que as gerações continuem.
Sim, às vezes você podia ouvir o mbokapu (barulho de armas), música alta, talvez comemorando um aniversário. Foi exatamente isso que se percebeu naquela época, senhores.
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| 80% da Ilha foi inundado. Foto Museu de História Natural do Paraguai |
O anúncio de uma grande inundação
No grande teko'a eram realizados os ritos, no opy (recinto sagrado) liderado pelos yvyra'ija (líderes religiosos) e toda a comunidade comparecia. Este rito foi realizado no início da primavera, época em que a Mãe Natureza se reinicia em todos os aspectos.
Os líderes religiosos pediram esclarecimento e prenunciaram o que poderia acontecer. E justamente num desses ritos anunciaram que as águas do rio Paraná subiriam muito e inundariam tudo; mas não como quase sempre acontecia, que as águas subiam e depois baxavam. O anúncio dizia que desta vez a água não baixaria mais, a inundação seria permanente e nós, Mbya, teríamos que procurar outros lugares para viver.
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| Repórter do Canal 8 com o professor e jornalista mbya Brigido Bogado e a artesã Irma Cabral com uma de suas peças |
| Richard Gómez recebe os visitantes em Jesús de Tavarangue |
O Paraguai tem "sete ruínas" Jesuíticas. Três no departamento de Itapúa e quatro no departamento de Misiones. Não é Misiones, Argentina. O Paraguai também tem um departamento chamado Misiones. Das sete, só duas estão na lista da Unesco do Patrimônio Cultural Mundial: Jesús e Santísima Trinidad del Paraná.
Das três que conheci junto com um grupo de jornalistas paraguaios convidados pela Secretaria Nacional de Turismo (SENATUR), a que mais me demanda esforço para escrever sobre ela é a que se chama Jesús de Tavarangué. Na viagem conhecemos Santísima Trinidad del Paraná, Jesús (na mesma noite) e San Cosme y San Damián, pela manhã do dia seguinte.
Ainda no começo da viagem, antes de deixarmos a Ruta I que parte de Ciudad del Este em direção a Assunção e girar à esquerda para a Ruta 6 rumo a Encarnação, perguntei alguma coisa à turismóloga e coordenadora da viagem, Shirley Pedrozo, sobre as ruínas. Ela respondeu e acrescentou que a palavra "ruínas" não está mais em uso e disse por quê. Uma ruína se reduz a pedras e está abandonada Já as missões que estávamos a caminho para conhecer são muito mais que isso. Elas contam uma história, dá para ver a história em sua silenciosa continuidade e algumas delas ainda são alvo de uso moderno.
Entendida esta parte passei para outra e desta vez envolvendo outros jornalistas na conversa. Quiz saber o que significa o "rangué" de tavarangué. Expliquei que eu suspeitava que "rangué" quer dizer que deu errado? Que ao invés de uma coisa deu outra? Trazer o guarani à tona em uma conversa com paraguaios significa tocar em um assunto que é parte da alma do país. O guarani é falado e entendido por mais de 90% da população. A explicação começa do começo.
Jesús, lembraram, foi construída para ser a futura capital de todas as missões. Para ser uma "tava" que quer dizer "cidade". Em guarani, a "futura cidade" seria tavarã (rã é uma partícula de futuro das coisas). Ou seja tava+rã.
O guarani, em sua sabedoria, também tem uma partícula para o passado das coisas. É a partícula "Kue" que se escreve "ngue" depois de som nasal. É mole? O resultado é Tavarãngue! Explicou Shirley: "Jesús foi projetada para ser o centro de todos os povos jesuítas mas não foi concluída por causa da expulsão da congregação. Por isso o nome quer dizer "cidade que iria ser mas não foi". Outra tradução desta vez em espanhol é "ciudad que hubiera sido".
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| Jesús: Construída para ser o Centro de todos os 30 Povos Jesuítas das Missões (foto Wikipedia) |
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| Desembocadura do Rio Monday, primeiro local da Missão que então se chamou Jesús del Monday |
A segunda informação com carga emocional muito forte veio ainda do Richard Gómez, quando ele disse que Jesús foi estabelecida pela primeira vez em 1685 às margens do Rio Monday, próximo à desembocadura dele no Rio Paraná, abaixo do Salto Monday. Partindo do atual Marco das Três Fronteiras, descendo o rio Paraná, em menos de meia hora, a remo, chegaríamos à área da antiga redução. Se é fácil chegar ao local, hoje, de canoa em meia hora, imagine para os bandeirantes que sentiam o faro de "missões" a léguas de distância. Por isso, a missão adentrou o território espanhol buscando e por fim encontrando um bom local onde ela foi finalmente construída e onde esperava-se que prosperasse. O arquiteto da Missão foi o jesuíta espanhol Antonio Forcada. Forcada, contribuiu trazendo mais um detalhe para a missão de Jesús, a ex- Missão de Jesús del Monday. Forcada se inspirou na arquitetura árabe a influência árabe espanhola, de sua experiência o que faz de Jesús a única Missão em que a arquitetura, em vez de barroca, é mourisca.
Iluminadas à noite
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| A parede atrás do altar que ainda se conserva, iluminada com tecnologia moderna. Uma viagem no tempo. |
| Ranulfo Fletes: Pirá Rendá, o atrativo turístico criado por este senhor é uma utopia que deu certo, criada ao longo de 19 anos |
| No aquário principal |
Aquários, oceanários e parques aquáticos são investimentos de capital intensivo e estão espalhados pelo mundo em destinos de turismo de massa.
Não deixa de ser uma surpresa que na lista de atrativos de San Cosme, em Itapúa no Paraguai há um. Se chama Pira Rendá. "Pira" é peixe e "rendá" é lugar. O significado fica entre Lugar de Peixe e, na moral da história, "aquário". A diferença entre o aquário de San Cosme e os outros aquários do mundo é que este foi idealizado, projetado e construído pelo engenheiro agrônomo Ranulfo Fletes, que entre outras experiências no currículo está ter sido vice-ministro do Meio Ambiente no Paraguai.
"Isso aqui é uma utopia que nasceu 19 anos atrás quado comprei esse terreno", explica o dono do aquário Pira Renda ao receber o grupo de oito jornalistas de vários meios de imprensa paraguaios e no meio deles estava eu, de Foz do Iguaçu. "Esse terreno era uma pedreira e logo depois de comprar comecei a recuperar a terra", explica.
Aí começa o tour do Pirá Rendá. Logo na entrada há uma pequena piscina tipo laguinho onde se vê tartarugas. "Esta é uma tartaruga-cobra. Ela tem um pescoço enorme que permite defender-se de qualquer coisa que a agarre", e continua não só explicando mas contando história e se divertindo com os visitantes. Logo vem pequenos mini bosques ricos em orquídeas, canteiros de bromélias e árvores em crescimento. "Temos até chuva com arco-íris", avisa acionando um ferramenta que aciona um aspersor de orvalho.
Antes de chegar ao aquário há o museu. Um museu pequeno mas sério com amostras de objetos que contam a história do dia a dia da cidade, obras de arte atuais, ferramentas e ate uma lança do período de guerras e conflitos.
O aquário tem alguns tanques com diversos exemplares de peixes como pacu, piranha, dourado (piraju) e até uma carpa que retribui o olhar do visitante.
Embora a visita durante viagens de familiarização sejam relâmpago, há tempo para conhecer as várias cabanas que podem alojar até 40 pessoas no total. Uma delas é especial. "Quero mostrar a cabana feita com garrafas. Se não tivesse sido reutilizadas onde estariam agora?", pergunta.
| Maureen Gauto do Programa "Sombrero Viajero" na sacada do chalé: Vista maravilhosa do rio Paraná lá em baixo |
| Garafas em pé e nichos trabalhado. Parede frontal do chalé |
| Jornalista Karen Martínez de Assunção testa sofá da sala-de-estar do chalé. Paredes e piso também feitas de garrafas |
Apontando para a imensidão do "embalse" ele lembra que o complexo de ilhas encabeçado peças ilhas de Yacyretá e Apipe tinham cerca 180 ilhas.
Durante a conversa, eu disse ao engenheiro que ele me lembrava Moisés Bertoni. E ele reagiu: "Bertoni sempre foi minha inspiração", contou. E confidenciou uma experiência. "Quando eu trabalhava no serviço público, fiz um levantamento dos solos do Paraguai em parceria com o Instituto Alemão de Geodésia usando instrumentos modernos e laboratórios e o resultado foi igual às conclusões Bertoni que só utilizava amostras que os nativos traziam. Não foi parecido, foi igual", concluiu.
Ativo na sociedade onde ajudou fundar e é membro do Conselho Distrital de Turismo, continua trabalhando ára que a tradição da vila de San Cosme y Damián e o Rio Paraná receber grandes cientistas como Buenaventura Suárez, Moisés Bertoni e Curt Schrottky (este último não muito conhecido nas Três Fronteiras).
| Ranulfo Fletes no Museu do Aquário Pirá Rendá. O quadro na parede é dele. O que há de raro nele? ("Um peixe nada na direção contrária dos outros. Nem todo mundo pensa igual", responde) |
Nota
San Cosme y Damián tem sete pousadas turísticas. Além dos chalés do Aquário Pirá Rendá. Não é mais necessário que o visitante chegue correndo e saia voando sem entender o local, seu patrimônio, sua proposta e ver sua gente. A cidadezinha "Melhor Vila Turística" pode ser melhor aproveitada também pelo turismo que atende a nichos como observadores de pássaros, amantes de astronomia (a Argentina tem um grupo chamado Turismo de Estrelas), a amantes de história, turismo religioso quer como fiel ou interessados em história da religião, neste caso a história das fascinantes reduções (missões) jesuíticas, a proposta da Congregação de Jesus e ver como a história se reflete hoje. O meu entrevistado favorito disse também que um público que pode ganhar muito com a visita é o dos ligados nas energias.
"Isso é um vortex de energia", disse lembrando que a geologia do local já cristalina ou rica em quartzo. Os mbya (guarani) da comunidade ou Tekoa chamada Pindó, oferece artesanato que inclui as pedras de quartzo. Fica a sugestão.
Nesta série de postagens faltam duas reduções:
1. Santísima Trinidad del Paraná
2. Jesús de Tavarangue
* Pira Renda em guarani e no uso paraguaio não necessita de acento. Transcrevo em português como "Pirá Rendá" para não confundir a pronúncia.
Vou começar este relato de viagem apresentando primeiro este símbolo:
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| Estabelecimentos do município (distrito) paraguaio de San Cosme y Damián têm a autorização de usar esta logomarca em seus projetos de divulgação |
Ele só pode ser usado por municípios no mundo que tenham recebido o título da Organização Mundial do Turismo. Com esta designação a cidadezinha "certificada" passa integrar uma lista de municípios de até, no máximo, 15 mil habitantes escolhidos a dedo a pedido dos governos nacionais. Para se qualificar o cidade precisa ter características de uma comunidade rural, que possa classificar-se como um destino turístico rural e que possua um patrimônio natural e cultural reconhecido. Deve ainda dar indícios de que preserva e promova os valores rurais, comunitários e o estilo de vida dessa comunidade.
| "Este edifício não é um museu. É o templo paroquial. Roga-se aos visitantes respeito e reverência. Convida-se aos católicos a que parem diante do Santíssimo" (Recado dado) |
| Em primeiro plano o corredor do Colégio Jesuíta. Ao fundo a Igreja |
| Relógio do Sol continua marcando a hora. Barboza explica o funcionamento às jornalistas Karen Martínez e Maureen Gauto |
| Rolando Barboza mostra detalhes da construção |
| Mulheres da comunidade chegando ao portão de segurança apesar de um incêndio e saqueios |
| Estrutura de recepção e aquisição de ingressos |
Entre os dias 1º e três de dezembro conheci três das missões desta lista. Jesús, Santísima Trinidad del Paraná e San Cosme y San Damián.
A viagem conhecida como Press Trip ou "viagem para a imprensa" foi organizada pela Secretaria Nacional do Turismo, uma secretaria com status de ministério. Saímos quatro jornalistas de Ciudad del Este, Dolly Galeano do diário La Nación, Yanina Allende do programa Todo Positivo, Luis Carlos Ayala, câmera, fotógrafo e piloto de drone do Todo Positivo e Jackson Lima de Foz do Iguaçu quem assina este Blog de Foz. Encontramos em Encarnação o outro grupo que partiu de Assunção, Conheci então Kaelo Fatecho, câmera e piloto de drone do programa Sombrero Viajero, a repórter Maureen Gauto do mesmo programa, Isabel Ciciolli do diário Ultima Hora e Karen Martínez da Revista Foco. Ter sido o único brasileiro no grupo foi um dos grandes destaques e alegria para mim dada à oportunidade de aprender. A viagem foi boa para todos já que a maioria não conhecia e se já conhecia não tinha tido a abordagem que tivemos.
Falando em abordagem, a primeira veio da servidora da Senatur na Turista Roga em Ciudad del Este e turismóloga pela Universiodad Nacional de Este, Shirley Pedrozo quando perguntei alguma coisa sobre as ruínas que visitaríamos. Ela gentilmente informou que o Paraguai não estava mais encorajando o uso da palavra "ruína" mas sim preferindo sempre o uso da palava Missão, já que as missões continuam vivas e algumas delas em funcionamento com missas ainda sendo celebradas por padres jesuítas e muitas delas ainda sob a gestão da Congregação Jesuíta.
"Não é uma coisa do passado", destaca No caso da Missão de San Cosme y San Damián a sede da paróquia é a antiga Igreja da Missão ocupando um edifício de 1761. O imenso prédio que inclui a igreja provisoria e o colégio são usados pela igreja atual que é parte da Diocese de Encarnação. Entendida a mensagem de nossa guia Shirley Pedrozo, aboli o termo "ruínas".
A cidadezinha de menos de 9 mil habitantes recebeu distinção da Organização Mundial do Turismo em 2022 de ser incluída na lista das "Best Tourism Villages" ou Mejores Pueblos Turísticos (Melhores Povoados Turísticos).
O título reconhece a capacidade da cidade manter o equilíbrio entre passado e presente, ser fiel a sua história e estórias, ao ponto da praça municipal de hoje ser a mesma Plaza Mayor da missão. Os equipamentos urbanos como parquinho para crianças vivem sob a sombra de árvores centenárias.
| Modelo da Via Láctea no Centro de Interpretação |
| Jornalista Maureen Gauto testa o modelo da Via Láctea |
Inspirado no legado de Buenaventura, a Secretaria criou um Centro de Interpretação Astronômica que inclui um observatório astronômico equipado com vários telescópios para observação noturna e um telescópio refrigerado a hidrogênio para observação do sol. Há também um modelo da Via Láctea que permite a interação com o visitante. A repórter Maureen Gauto não perdeu a oportunidade de ter a experiência de entrar no buraco negro no centro do modelo de Via Láctea e sair no outro lado do universo. A interpretação inclui um vídeo sobre a astronomia guarani, mostrando a sabedoria dos povos originários na pratica de observar os céus para guiar suas atividades na agricultura.
| O monitor do Centro de Interpretação Jorge Benítez mostra funcionamento do modelo do sistema solar |
| Sinalização trilíngue do atrativo: castelhano, guarani e inglês |
| Jornalista Karen Martínez em observação do sol |
| Parque Municipal com árvores centenárias é a antiga Plaza Mayor da Missão |
| Monumento ao padre astrônomo Buenaventura Suárez e seu telescópio |