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terça-feira, 3 de setembro de 2024

Como os Mbya Guarani se reinventaram após serem expulsos da Ilha Yacyretá?

Foi-lhes tirada a ilha paradisíaca, mas não o espírito de luta e de reafirmação da sua identidade como povo indígena Mbya Guarani. Esta é a história dos membros da comunidade Pindó, em San Cosme y Damián, Itapúa, narrada por um de seus principais protagonistas, o poeta, escritor, professor e jornalista indígena Brigido Bogado, fundador da primeira escola indígena da região*


Professor Brigido Bogado sob uma foto que lhe rende homenagem na escola que ele fundou. Foto de Desirée Esquivel co-fundadora do El Otro País 


Por Brigido Bogado da comunidade Mbya Pindó, 
San Cosme y Damián, Itapúa, Paraguai

Era extensa a ilha Jasy retã, na região de Itapúa, onde hoje fica a grande hidrelétrica do mesmo nome, margeada pelo majestoso, pacífico e às vezes terrível rio Paraná. Lá, o povo indígena Mbya Guarani vivia pacificamente e sem muitas preocupações.

O rio Paraná oferecia peixes abundantes e variados. A densa selva que então existia forneceu seus frutos, sua rica fauna, os remédios necessários para equilibrar a alma e o corpo, porque como diziam os opygu'a (líderes religiosos), as doenças vêm nos alertar sobre a falta de harmonia, do desequilíbrio entre a alma e o corpo.

A ilha Jasy retã (ou Yacyretá, como se escreve oficialmente, mantendo a antiga grafia do guarani, que significa 'Terra da Lua') era como a Yvy Mara'e'y, a mítica Terra sem Mal, para os habitantes Mbya , aqueles que andavam nus e também seminus, porque na mente e na alma dos Mbya não havia maldade, não havia malícia ou ideia pecaminosa de andar sem roupa. Para nós, mostrar o corpo é algo natural. O corpo tem um propósito específico, reproduzir e permitir que as gerações continuem.

Sim, às vezes você podia ouvir o mbokapu (barulho de armas), música alta, talvez comemorando um aniversário. Foi exatamente isso que se percebeu naquela época, senhores. 


80% da Ilha foi inundado. Foto Museu de História Natural do Paraguai
 (Parte do que restou são as Dunas de San Cosme y San Damián) 

(

O anúncio de uma grande inundação

No grande teko'a eram realizados os ritos, no opy (recinto sagrado) liderado pelos yvyra'ija (líderes religiosos) e toda a comunidade comparecia. Este rito foi realizado no início da primavera, época em que a Mãe Natureza se reinicia em todos os aspectos.

Os líderes religiosos pediram esclarecimento e prenunciaram o que poderia acontecer. E justamente num desses ritos anunciaram que as águas do rio Paraná subiriam muito e inundariam tudo; mas não como quase sempre acontecia, que as águas subiam e depois baxavam. O anúncio dizia que desta vez a água não baixaria mais, a inundação seria permanente e nós, Mbya, teríamos que procurar outros lugares para viver.


O anúncio feito durante aqueles ritos, segundo os líderes religiosos, falava que haveria um grande estrondo nas proximidades, como se enormes raios do céu caíssem sobre as pedras, as pedras saltassem no ar e o local seria completamente e permanentemente modificado.

E foi exatamente assim. Depois de um tempo desses anúncios, vieram as enchentes, a água do rio Paraná transbordou sobre nossas terras e não recuou. As grandes explosões ocorreram e os Mbya fugiram das águas o melhor que puderam, com nossos animais, nossas canoas e outros ajudados por alguns Juru'a (não indígena), que se solidarizaram com eles.

As obras da grande barragem começaram. Em 1973, foi assinado em Assunção o Tratado de Yacyretá, para a construção do grande projeto hidrelétrico. De acordo com as leis, deveria ter sido feito um trabalho prévio com os habitantes originários da ilha, para proceder a sua  transferência, mas tal coisa nunca aconteceu com os Mbya. Se aconteceu com muitos não indígenas, os Juru'a, que sabendo o que iria acontecer, construíram casas precárias, fizeram plantações e criaram alguns animais domésticos, para depois serem indenizados, como se fossem os antigos habitantes da ilha.

Nada disso aconteceu com os Mbya. Os membros do meu povo tiveram que deixar a ilha à força. Fomos expulsos. Algumas famílias mudaram-se para terras argentinas, onde também havia alguns colonos Mbya. Outros se estabeleceram nos arredores da cidade de Ayolas. Outras famílias partiram para San Ignacio, Santa María, San Juan de Misiones. Outros emigraram para a zona do alto Paraná e Itapúa, onde ainda existiam montanhas e territórios virgens, todos de influência Mbya. Suas rotas eram extensas e cobriam grandes áreas.

Ajuda solidária

Na década de 1980, após o início da construção da barragem, algumas pessoas se interessaram pela difícil situação de abandono em que viviam as famílias Mbya perto da cidade de Ayolas, Misiones e outros locais próximos da barragem.

Muitos dos que foram expulsos da Ilha de Jacyretá sobreviveram por conta própria, em situações muito precárias, sem ter moradia própria. Esta realidade chamou a atenção dos membros da Equipe Nacional de Missões, da Conferência Episcopal Paraguaia (CEP), organização que vinha trabalhando na assistência aos povos indígenas.

Desta forma, com autorização do então bispo de Encarnação, Dom Juan Bockwinkel, os Mbya afetados pela construção da barragem passaram a trabalhar com o coordenador da equipe, o padre Wayne Robins, a advogada Mirna Vázquez, já falecida, que era especialista em direito indígena e outras pessoas.

Da região de Itapúa, Crescencia Carísimo e o autor desta nota, Brigido Bogado, juntaram-se à equipe.

A primeira coisa que fizemos foi um censo para registar todas as famílias e pessoas Mbya que estavam na região, expulsas das suas terras e abandonadas pelas autoridades.

Muitas reuniões foram realizadas com os líderes. Muitos deles não queriam saber nada sobre como lidar com a papelada, pois diziam, a partir de sua visão de indígenas: “Ñande Ru kuery (nossos deuses) nos colocaram nestas terras para viver e nos desenvolver livremente”. Nada mais era necessário para eles.

Depois de muitas conversas, um grupo concordou em realizar os procedimentos que os membros da Equipe de Missões aconselharam a fazer junto às autoridades da Entidade Binacional Yacyretá, responsável pela construção da barragem. Foi um longo processo para eles reconhecerem que havia famílias Mbya que viviam na ilha antes da construção da hidrelétrica, que nunca foram levadas em conta, que foram expulsas arbitrariamente.

Por fim, reconheceram oficialmente 28 famílias como ex-habitantes. A EBY concordou em comprar cerca de 425 hectares de terras de dois proprietários que concordaram em vender, para localizar as nossas famílias, nos arredores da cidade de San Cosme y Damián.

Em Outubro de 1989, poucos meses após a derrubada do governo do General Stroessner, entramos nas nossas novas terras. Decidimos dar à nossa nascente comunidade o nome de Pindó, que corresponde a uma palmeira tradicional da região (nome científico: Syagrus romanzoffiana), que para os Mbya é uma planta muito especial, porque utilizamos todas as suas partes, o tronco, o folhas, os frutos, tanto como alimento como para nossas construções, bem como para fabricar implementos, utensílios, artesanato, etc.

O presidente que derrubou o ditador Stroessner, o general Andrés Rodríguez, veio visitar a nossa comunidade e nos deu o título de propriedade dos 425 hectares, com o qual conseguimos garantir que não poderiam mais nos tirar essas terras. Rodríguez também inaugurou a escolinha indígena que construímos e da qual fui o principal divulgador e o primeiro professor indígena, tanto que no início funcionou na minha casa, onde dava aula para as crianças, até que conseguimos construir uma sala de aula. Nossa escola, que cresceu muito nesse tempo, é a primeira escola indígena que começou a funcionar em todo o Departamento de Itapúa.

Grupo de Teatro Yvy Mara'e'y  da Comunidade Pindó

Uma comunidade modelo

Depois de ficarmos muito tempo sem terra, abandonados, morando de qualquer forma em qualquer lugar, finalmente tínhamos um novo lugar para construir nossa comunidade como povo indígena. Havíamos sido expulsos da nossa ilha paradisíaca, mas tínhamos novamente um lugar que era legalmente nosso, não tão grande quanto a nossa cultura exige, mas importante para seguirmos em frente.

A Comunidade Pindó está localizada a 368 quilômetros ao sul da capital Assunção, a 78 quilômetros de Encarnación, capital do departamento de Itapúa e a 18 quilômetros das cidades de San Cosme e San Damián. A estrada pavimentada que leva a San Cosme passa pela nossa comunidade.


Atualmente são 46 famílias morando em Pindó. Temos serviço de electricidade, pagamos o consumo, embora acreditemos que deveria ser gratuito para os Mbya, como reparação por nos terem expulsado da nossa casa, para a construção da barragem.

Ao lado da estrada que leva a San Cosme y Damián

Pindó vem se organizando, buscando ser uma comunidade indígena modelo no resgate de nossas tradições ancestrais, embora ainda precisemos realizar muitas conquistas. Nossas famílias se dedicam à agricultura e aos trabalhos esporádicos, já que os indígenas nunca recebem o que está estipulado na lei. 

Procuramos oferecer alternativas ao turismo, principalmente com o artesanato que nossos avós nos ensinaram. Hoje contamos com artesãos hábeis de nossa comunidade que fazem lindos trabalhos de escultura em madeira kurupika'y, cedro peterevy, folhas de pindó, além das linhas de cestaria Mbya com tiras de takuarembo, ñandypa e guembe. As amostras esculpidas em pedaços de madeira recriam figuras de diversos animais e outros objetos, que ficam expostos em barracas de vendas ao longo do percurso, bem como em feiras periódicas em locais turísticos.

Um fator muito apreciado é que os meninos e meninas de Pindó formaram um Coral e um Grupo de Dança, conhecido como Teko Marãe'y, que tem feito apresentações bem sucedidas em feiras internacionais do livro, festivais, eventos acadêmicos e turísticos.

Em nossa escola aprendemos desde a pré-escola até o primeiro ano, com professores indígenas e não indígenas. Temos muitos jovens, meninas e meninos, que estudam na universidade e trabalham no comércio. No meu caso particular, além de poeta e escritor, professor, membro da Sociedade Paraguaia de Escritores (SEP), publicando livros, pude concluir meus estudos de jornalismo na Universidade Católica de Encarnación, percorrendo os 78 quilômetros até lá e depois retornando à, comunidade, no meio da noite. Dessa forma sacrificada, em 2021 me graduei com honras, tornando-me o primeiro indígena Mbya Guarani a ser formado em Ciências da Comunicação, com ênfase em Jornalismo. Hoje me alegra fazer parte da equipe de jornalismo do El Otro País como colaborador e assessor nas questões indígenas.

O artesanato é um importante modo de preservar a cultura e ajudar economicamente 



Podemos afirmar que a qualidade de vida que os habitantes originários da Ilha Jasy Retã tinham, antes da construção da barragem, infelizmente ficou para trás, pois a extensão de terra onde hoje está localizada a nossa Comunidade já não possui as riquezas naturais que costumavam ser abundantes, como os peixes variados, os frutos abundantes das montanhas, a fauna variada e o céu imenso respirando ar de liberdade, mas mesmo assim nos organizamos para sustentar uma comunidade que busca resistir às mudanças culturais e seguir em frente, mantendo viver a nossa identidade Mbya, adaptando-nos aos novos tempos, mas sem esquecer o que os nossos antepassados ​​nos deixaram. 

É o espírito das soluções com as quais procuramos responder à situação dos povos indígenas, que continua crítica em diversas regiões do país.

Repórter do Canal 8 com o professor e jornalista mbya Brigido Bogado e a artesã Irma Cabral com uma de suas peças



Notas:
* Abertura de Andrés Colmán Gutiérrez
Com exceção da primeira foto da jornalista Desirée Esquivel e a foto da Ilha, as demais fotos são do acervo no Facebook do professor Brigido Bogado. San Cosme y Damián é um município do Departament de Itapúa, Paraguai que abriga a antiga Missão Jesuita de San Cosme y San Damián onde a igreja principal funciona até hoje. A missão é uma das sete altamente preservadas que formam o patrimônio cultural do Paraguai. Duas são patrimônio mundial / UNESCO  
Postado originalmente em 29 de abril de 2022 - Artigo original




domingo, 4 de dezembro de 2022

Visita às Missões Jesuíticas de Itapúa, Paraguai: São Cosme e São Damião



Estrutura de recepção e aquisição de ingressos

Entre os diferentes roteiros turísticos do Paraguai há um que se chama Rota Jesuítica. Ele é composto pelas missões  de San Ignacio Guasu, Santa Maria de Fé, Santa Rosa, Santiago, Santísima Trinidad del Paraná,  San Cosme y San Damián e Jesús. Jesús é o nome da missão. Mas segundo o guia altamente capacitado, Richard Gómez  que recebeu o grupo para uma visita noturna,  por um motivo triste e ao mesmo tempo especial Jesús recebeu o "apelido" de Tavarãngue.  

Entre os dias 1º e três de dezembro conheci três das missões desta lista. Jesús, Santísima Trinidad del Paraná  e San Cosme y San Damián. 

A viagem conhecida como Press Trip ou "viagem para a imprensa" foi organizada pela Secretaria Nacional do Turismo, uma secretaria com status de ministério. Saímos quatro jornalistas de Ciudad del Este, Dolly Galeano do diário La Nación, Yanina Allende do programa Todo Positivo, Luis Carlos Ayala, câmera, fotógrafo e piloto de drone do Todo Positivo e Jackson Lima de Foz do Iguaçu quem assina este Blog de Foz. Encontramos em Encarnação o outro grupo que partiu de Assunção, Conheci então Kaelo Fatecho, câmera e piloto de drone do programa Sombrero Viajero, a repórter Maureen Gauto do mesmo programa, Isabel Ciciolli do diário Ultima Hora e Karen Martínez da Revista Foco. Ter sido o único brasileiro no grupo foi um dos grandes destaques e alegria para mim dada à oportunidade de aprender. A viagem foi boa para todos já que a maioria não conhecia e se já conhecia não tinha tido a abordagem que tivemos. 

Falando em abordagem, a primeira veio da servidora da Senatur na Turista Roga em Ciudad del Este e turismóloga pela Universiodad Nacional de Este,  Shirley Pedrozo quando perguntei alguma coisa sobre as ruínas que visitaríamos. Ela gentilmente informou que o Paraguai não estava mais encorajando o uso da palavra "ruína" mas sim preferindo sempre o uso da palava Missão, já que as missões continuam vivas e algumas delas em funcionamento com missas ainda sendo celebradas por padres jesuítas e muitas delas ainda sob a gestão da Congregação Jesuíta. 

"Não é uma coisa do passado", destaca  No caso da Missão de San Cosme y San Damián a sede da paróquia é a antiga Igreja da Missão ocupando um edifício de 1761. O imenso prédio que inclui a igreja provisoria e o colégio são usados pela igreja atual que é parte da Diocese de Encarnação.  Entendida a mensagem de nossa guia Shirley Pedrozo, aboli o termo "ruínas".       

A cidadezinha de menos de 9 mil habitantes recebeu distinção da Organização Mundial do Turismo em 2022 de ser incluída na lista das  "Best Tourism Villages" ou Mejores Pueblos Turísticos (Melhores Povoados Turísticos).

O título reconhece a capacidade da cidade manter o equilíbrio entre passado e presente, ser fiel a sua história e estórias, ao ponto da praça municipal de hoje ser a mesma Plaza Mayor da missão. Os equipamentos urbanos como parquinho para crianças vivem sob a sombra de árvores centenárias. 

Modelo da Via Láctea no Centro de Interpretação

Jornalista Maureen Gauto testa o modelo da Via Láctea
O jesuíta mais famoso da antiga redução era astrônomo e matemático. Buenaventura Suárez construiu em San Cisme y Damián o primeiro observatório astronômico da região do Prata. O corpo do telescópio foi feito de bambu e a lente cortada e polida do quartzo ainda presente e valorizado na região. Unindo e equilibrando passado e presente uma estátua do padre Buenaventura Suárez ocupa um pedestal na antiga Plaza Mayor ou atual Praça Municipal. 

Inspirado no legado de Buenaventura, a Secretaria criou um Centro de Interpretação Astronômica que inclui um observatório astronômico equipado com vários telescópios para observação noturna e um telescópio refrigerado a hidrogênio para observação do sol. Há também um modelo da Via Láctea que permite a interação com o visitante. A repórter Maureen Gauto não perdeu a oportunidade de ter a experiência de entrar no  buraco negro no centro do modelo de Via Láctea e sair no outro lado do universo. A interpretação inclui um vídeo sobre a astronomia guarani, mostrando a sabedoria dos povos originários na pratica de observar os céus para guiar suas atividades na agricultura.

O monitor do Centro de Interpretação Jorge Benítez mostra funcionamento do modelo do sistema solar

Sinalização trilíngue do atrativo: castelhano, guarani e inglês


Jornalista Karen Martínez em observação do sol

Parque Municipal com árvores centenárias é a antiga Plaza Mayor da Missão

Monumento ao padre astrônomo Buenaventura Suárez e seu telescópio

Nota
Próximas postagens:
Missões de Santíssima Trinidad del Paraná e Jesus de Tavarãngue
Hohenau, Bella Vista Sur e Obligado Colônias Unidas e Mate Rape
O Museu da charmosa Carmen del Paraná




segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Explorando a estrutura jesuítica de San Cosme y San Damián: Melhor Vila Turística pela OMT

 Vou começar este relato de viagem apresentando primeiro este símbolo:


Estabelecimentos do município (distrito) paraguaio de San Cosme y Damián têm a autorização de usar esta logomarca em seus projetos de divulgação

Ele  só pode ser usado por municípios no mundo que tenham recebido o título da Organização Mundial do Turismo. Com esta designação a cidadezinha "certificada" passa integrar uma lista de municípios de até, no máximo, 15 mil habitantes escolhidos a dedo a pedido dos governos nacionais. Para se qualificar o cidade precisa ter  características de  uma comunidade rural, que possa classificar-se como um destino turístico rural e que possua um patrimônio natural e cultural reconhecido. Deve ainda dar indícios de que preserva e promova os valores rurais, comunitários e o estilo de vida dessa comunidade. 

"Este edifício não é um museu. É o templo paroquial. Roga-se aos visitantes respeito e reverência. Convida-se aos católicos a que parem diante do Santíssimo"
(Recado dado)


Esta descrição encaixa como uma luva no Município de San Cosme y San Damián, no Departamento de Itapúa no Paraguai, com sua população na faixa dos 9.800 habitantes sobre uma área  de 800 km², 200 km² a mais que Foz do Iguaçu. Ninguém ousa questionar o direito da cidade ter um título mundial concedido por uma instituição pertencente ao sistema de organizações da ONU, falo da OMT, como uma das Melhores Vilas Turísticas. 

A única paróquia da cidade funciona na Igreja Jesuítica. Ainda hoje crianças da comunidade estudam na escola que usa o antigo Colégio Jesuíta. A Praça Principal da cidade está no antiga Plaza Mayor dos Jesuítas. Parte da estrutura da Secretaria de Turismo está em uma casa da época jesuíta ao lado de uma casa moderna onde se vende ingressos para vistar as outras duas missões da região que são Jesús de Tavarangue e Santíssima Trindade. 
Em primeiro plano o corredor do Colégio Jesuíta. Ao fundo a Igreja

O chefe da Secretaria de Turismo, Rolando Barboza recebeu e acompanhou o grupo de jornalistas durante toda a permanência e isso incluiu visitar a igreja principal que não ocupa toda a área construída para a Igreja Provisória. A Igreja principal começou a ser levantada mas não deu tempo para terminá-la devido a expulsão da congregação.
Visão frontal da Igreja que teve a última retoque em entre 1989 e 1991


Relógio do Sol continua marcando a hora. Barboza explica o funcionamento às jornalistas Karen Martínez e Maureen Gauto

Rolando Barboza mostra detalhes da construção

Mulheres da comunidade chegando ao portão de segurança apesar de um incêndio e saqueios 


Pintura original no teto da área do Colégio Jesuíta

Fundada em 1632 e ainda em funcionamento

Barboza não teve preguiça de mostrar toda a igreja, imagem por imagem, o altar e dependências do templo. Depois veio a caminhada inesquecível pelo antigo colégio onde até hoje crianças recebem aulas de arte, pintura, dança, inglês e outras disciplinas. E para provar que a historia está presente, todos os anos e várias vezes por ano há procissões, celebrações lideradas por padres jesuítas que ainda estão presentes no dia a dia da pequena cidade e sem dúvida uma Fantástica Vila Turística. As fotos mostram parte do que Rolando Barboza mostrou aos jornalistas.          

Sobre o concurso Melhores Vilas Turísticas (do Mundo)
Todos os anos a OMT abre o concurso internacional. Os ministérios do turismo indicam os candidatos nacionais. O Ministério do Turismo do Brasil indicou em 2021 três Vilas Turísticas: o distrito de São Bartolomeu, em Ouro Preto (MG), o distrito de Alberto Moreira, em Barretos (SP), e a Vila do Enxaimel, em Pomerode. No caso brasileiro não é a cidade inteira. Quem venceu foi a Vila, Distrito ou Rota do Enxaimel, não a cidade de Pomerode inteira. No Paraguai ganhou o selo e título San Cosme y San Damián. Outra localidade paraguaia que concorreu foi Yguazu antiga colonia japonesa hoje município no Alto Paraná não tão longe de Foz do Iguaçu.Yguazu pode tentar de novo. A cidade está construindo boas ofertas e roteiros. O blog de Foz logo divulgará Yguazu e suas propostas no turismo integrado das Três ou Tríplice Fronteira.           

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Pirá Rendá um atrativo turístico que inclui aquário, museu e floresta reconstruída em São Cosme e Damião (PY)


Ranulfo Fletes: Pirá Rendá, o atrativo turístico criado por este senhor é uma utopia que deu certo, criada ao longo de 19 anos

Ainda sobre San Cosme y San Damián cidade certificada pela OMT como uma das 44 "Melhores Vilas Turísticas" escolhidas em em 2021 e anunciadas este ano, graças à sua Missão Jesuíta preservada, ter sido sede do primeiro Observatório Astronômico do Cone Sul e estar buscando colocar-se na rota de turismo e economia sustentável equilibrando passado, presente e futuro


No aquário principal

Aquários, oceanários e parques aquáticos são investimentos de capital intensivo e estão espalhados pelo mundo em destinos de turismo de massa. 

Não deixa de ser uma surpresa que na lista de atrativos de San Cosme, em Itapúa no Paraguai há um. Se chama Pira Rendá. "Pira" é peixe e "rendá" é lugar. O significado fica entre Lugar de Peixe e, na moral da história, "aquário".  A diferença entre o aquário de San Cosme e os outros aquários do mundo é que este foi idealizado, projetado e construído pelo engenheiro agrônomo Ranulfo Fletes, que entre outras experiências no currículo está ter sido vice-ministro do Meio Ambiente no Paraguai. 

"Isso aqui é uma utopia que nasceu 19 anos atrás quado comprei esse terreno", explica o dono do aquário Pira Renda ao receber o grupo de oito jornalistas de vários meios de imprensa paraguaios e no meio deles estava eu, de Foz do Iguaçu. "Esse terreno era uma pedreira e logo depois de comprar comecei a recuperar a terra", explica.


Aí começa o tour do Pirá Rendá. Logo na entrada há uma pequena piscina tipo laguinho onde se vê tartarugas. "Esta é uma tartaruga-cobra. Ela tem um pescoço enorme que permite defender-se de qualquer coisa que a agarre", e continua não só explicando mas contando história e se divertindo com os visitantes. Logo vem pequenos mini bosques ricos em orquídeas, canteiros de bromélias e  árvores em crescimento. "Temos até chuva com arco-íris", avisa acionando um ferramenta que aciona um aspersor de orvalho. 

Antes de chegar ao aquário há o museu. Um museu pequeno mas sério com amostras de objetos que contam a história do dia a dia da cidade, obras de arte atuais, ferramentas e ate uma lança do período de guerras e conflitos. 

O aquário tem alguns tanques com diversos exemplares de peixes como pacu, piranha, dourado (piraju) e até uma carpa que retribui o olhar do visitante.   

Embora a visita durante viagens de familiarização sejam relâmpago, há tempo para conhecer as várias cabanas que podem alojar até 40 pessoas no total. Uma delas é especial. "Quero mostrar a cabana feita com garrafas. Se não tivesse sido reutilizadas onde estariam agora?", pergunta. 

Maureen Gauto do Programa "Sombrero Viajero" na sacada do chalé: Vista maravilhosa do rio Paraná lá em baixo    


Garafas em pé e nichos trabalhado. Parede frontal do chalé 



Jornalista Karen Martínez de Assunção testa sofá da sala-de-estar do chalé. Paredes e piso também feitas de garrafas 

Foram usadas 3,900 garrafas. No primeiro andar da cabana tipo chalé as garrafas são de fundo quadrado. Na área de estar são de fundo redondo. De qualquer lugar do terreno incluindo as cabanas se vê o rio Paraná lá embaixo. "Ao contrário da Itaipu a gente não diz Lago de Yacyreta. às vezes dizemos "embalse", mas geralmente é somente Rio Paraná.   

Apontando para a imensidão do "embalse" ele lembra que o complexo de ilhas encabeçado peças ilhas de Yacyretá e Apipe tinham cerca 180 ilhas. 

Durante a conversa, eu disse ao engenheiro que ele me lembrava Moisés Bertoni. E ele reagiu: "Bertoni sempre foi minha inspiração", contou. E confidenciou uma experiência. "Quando eu trabalhava no serviço público, fiz um levantamento dos solos do Paraguai em parceria com o Instituto Alemão de Geodésia usando instrumentos modernos e laboratórios e o resultado foi igual às conclusões Bertoni que só utilizava amostras que os nativos traziam. Não foi parecido, foi igual", concluiu.

Ativo na sociedade onde ajudou fundar e é membro do Conselho Distrital de Turismo, continua trabalhando ára que a tradição da vila de San Cosme y Damián e o Rio Paraná receber grandes cientistas como Buenaventura Suárez, Moisés Bertoni e Curt Schrottky (este último não muito conhecido nas Três Fronteiras).

Ranulfo Fletes no Museu do Aquário Pirá Rendá. O quadro na parede é dele. O que há de raro nele? 
("Um peixe nada na direção contrária dos outros. Nem todo mundo pensa igual", responde)



Nota   

San Cosme y Damián tem sete pousadas turísticas. Além dos chalés do Aquário Pirá Rendá. Não é mais necessário que o visitante chegue correndo e saia voando sem entender o local, seu patrimônio, sua proposta e ver sua gente. A cidadezinha "Melhor Vila Turística" pode ser melhor aproveitada também pelo turismo que atende a nichos como observadores de pássaros, amantes de astronomia (a Argentina tem um grupo chamado Turismo de Estrelas), a amantes de história, turismo religioso quer como fiel ou interessados em história da religião, neste caso a história das fascinantes reduções (missões) jesuíticas, a proposta da Congregação de Jesus e ver como a história se reflete hoje. O meu entrevistado favorito disse também que um público que pode ganhar muito com a visita é o dos ligados nas energias. 


Pendentes com quartzo da comunidade Pindó

"Isso é um vortex de energia", disse lembrando que a geologia do local já cristalina ou rica em quartzo. Os mbya (guarani) da comunidade ou Tekoa chamada Pindó, oferece artesanato que inclui as pedras de quartzo. Fica a sugestão.    


Nesta série de postagens faltam duas reduções:

1. Santísima Trinidad del Paraná 

2. Jesús de Tavarangue

* Pira Renda em guarani e no uso paraguaio não necessita de acento. Transcrevo em português como "Pirá Rendá" para não confundir a pronúncia. 

  


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Minha Missão - o que quero com esse trabalho?

Assim deve ter parecido a Missão Jesuíta Santa Maria del Iguazu. Reprodução do filme The Mission / A Missão, fundada nas Cataratas há 400 anos
1626 - 2026 

Jackson Lima

Com o trabalho de divulgação da história das Missões Jesuítas entre os Guaranis na região conhecida como Paraquária, o que eu desejo é trazer a Foz do Iguaçu e às Três Fronteiras a consciência de pertencimento da região a esta história.

Como resultado, gostaria de ver Foz do Iguaçu, pelo lado brasileiro, sendo um "portão de entrada" para os 30 Povos das Missões oferecendo atenção especial às expedições que tenham início ou terminem nas Cataratas.

Isto significaria ter agências de viagens, operadores, guias, equipes preparados para fomentar, incentivar, promover e realizar excursões, expedições aos legados desses antigos 30 Povos. Hoje a organização de viagens ou expedições a estas área ainda se recente da falta de informações e de sentido de pertencimento.

Os ministerios, Secretarias e organismos do turismo dos quatro países, já tem propostas rotas e roteiros que necessitam dessa injeção de pertencimento e uma nova visão. 

Dos 30 povos, oito estão no Paraguai, 15 na Argentina e sete no Rio Grande do Sul. Todos eles foram fundados por missões jesuítas e ocupavam uma área que ia do extremo Oeste do atual Paraná (antigo Guairá), o Paraguai, via Argentina, até redondezas de Porto Alegre,  entrando no Uruguai, ao leste. Eram povos com suas estâncias e ervais associados. 

Hoje, em Foz do Iguaçu não existe disponibilidade ou oferta de organização de visitas ou até informação ordenada sobre as rotas levando, como consequência a concentração de visitas apressadas só ao complexo arqueológico de San Ignacio Mini, na Argentina ou a escolha de um entre os oito, sitios arqueológicos do Paraguai.  Visitantes individuais ou famílias são obrigadas a contratar taxis ou traslados bate-e-volta com puco tempo de espera.

Hoje os 30 Povos das Missões correspondem, grosso modo, a 30 municípios localizados no Brasil (Rio Grande do Sul), Paraguai, Argentina e Uruguai. 

Já existe uma "Associação dos 30 Povos" no modelo multilateral com presidência pró-têmpore rotativa no estilo Mercosul que trabalha para chamar a atenção para a cultura, história, espiritualidade da região criadas nos úlimos 400 + anos,  que unem os povos nos quatro países com patrimônios que conversam entre si e com os das missões jesuítas na Bolívia. 

Tudo ajuda a formar aquela estrutura que apoia a  formação de uma identidade missioneira bem mais extensa que as interpretações atuais e separadas da riqueza da cultura gaúcha, missioneira, ligadas ao trabalho jesuíta. 

Este mês, no domingo logo após o 16 de agosto, os argentinos da Diocese de Iguazu, participam de uma peregrinação ao Santuário da Santa María del  Iguazú ou Santa Maria do Iguaçu, comemorando assim os 400 anos da fundação da Redução Jesuítica Santa Maria del Iguazu nas Cataratas do Iguaçu. Confira cobertura da peregrinação no ano passado em link no final da página.


Orquestra e Coro da Capela de Música de San Ignacio Guazú, um dos 30 Povos das Missões nas Cataratas do Iguaçu. A visita dos músicos anunciou  uma série de atividades que acontecerão em Foz do Iguaçu com participação extensão a Puerto Iguazu, Franco e Hernandarias em 2026. San Ignacio foi o primeiro dos 30 Povos   

Notas:

Relembre a cobertura da Peregrinação de Santa Maria del Iguazu 2024 

A lista dos 30 Povos

Brasil - RS:

São Miguel Arcanjo  

São Lourenço Mártir 

São Nicolau

São Francisco de Borja 

Santo Angelo Custódio  

São Luiz Gonzaga

São João Batista 


Paraguai:

San Igacio Guazu

Santa Maria de Fé

Santa Rosa de Lima

Santiago Apóstol

San Cosme y San Damián

Itapúa 

Santísima Trinidad del Paraná 

Jesus de Tavarangue


Argentina:

Corpus 

San Ignacio Mini 

Loreto

Santa'Ana

Candelarias

San Carlos

San José de Itacuá

Martires del Japón

San Javier

Santa Maria la Mayor

Concepción

Apóstoles

Santo Tomé

La Cruz

Yapeyu

  

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Entendendo os 30 Povos das Missões: trocando em miúdos

Visualização dos 30 Povos das Missões no Paraguai, Argentina e Brasil (Rio Grande do Sul) por cores 


 



A primeira coisa que me vem à mente quando penso nos 30 Povos das Missões é que eles são um conjunto. Formam um todo. A segunda é que eles estão em três países. São oito no Paraguai, 15 na Argentina e sete povos no Rio Grande do Sul.  No total, a obra dos jesuítas guarani foram mais de 80 Povos. Sobraram 30 assim que dá para identificar. 

Entre povos que não vingaram estão o de Hernandarias e o da Boca do rio Monday (PY) e Santa Maria do Iguaçu possivelmente no lado argentino do Parque Nacional do Iguaçu. A primeira imagem, acima é perfeita para visualizarmos já que estão separadas por cores. 


Vizualisação dos 30 povos das Missões acompanhada por uma lista lateral. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Quais produtos Turísticos do Mercosul estão mortos e enterrados? Quais cambaleiam? E quais respiram?

 

Parlamento do Mercosul em Montevidéu (Foto: Câmara dos Deputados, Brasil)

Nota: Este texto foi escrito originalmente em junho de 2007. Ele sofreu algumas modificações. O propósito dele é não deixar esquecer os Produtos Integrados do Mercosul. Eles fazem falta!

Já que o Mercosul inaugurou o seu Parlamento (funciona na Secretaria Administrativa do Mercosul – SAM em Montevidéu, Uruguai) e já que o Mercosul, como “instituição”, começa a funcionar, é hora do Notas do Turismo lembrar que chegou a hora de fazer decolar os chamados “Circuitos Internacionais” na área do turismo. 

Alguns desses circuitos já têm nome. É o caso do (1) Mundo Gaúcho, do (2) Mundo Jesuítico ou Circuito Internacional das Missões Jesuíticas e do (3) Pólo Internacional Turístico do Iguaçu. Está na hora de fazer tudo isso sair do papel. Por quê? Porque a demora da implementação desses “Circuitos” está ajudando a manter milhares de pessoas, regiões inteiras na pobreza. Sem que esses circuitos do Mercosul existam segundo as regras do Mercosul, se perpetua o reino da demagogia, da politicagem, do abuso. Onde? Como? Vejamos primeiramente o Circuito Internacional das Missões Jesuíticas

Este circuito é trinacional. Argentina, Brasil e Paraguai. Na Argentina fica na província de Misiones – que, como o nome sugere, deve ter Missões. E tem. Confira aqui e agora quais são. 

Acompanhando a barranca do Rio Paraná temos o que restou das antigas Missões de: Corpus, San Ignacio Miní, Loreto, Santa Ana e Candelária. Mais para o Oeste,  ou seja do Rio Paraná para o Rio Uruguai, temos San José, Apóstoles, Concepción, Mártires, San Javier e Santa Maria la Mayor. Ao longo do rio Uruguai estão: San Carlos, Santo Tomé, La Cruz e Yapeyú. 

No Brasil, que dizer no Rio Grande do Sul, temos as ruínas físicas de São Nicolau, São Borja, Santo Ângelo, São João, São José, São Luis e São Lourenço. Na lista argentino-brasileira, ou gaúcho-misionera há ruínas e ruínas. Quer dizer impactantes como San Ignacio Mini, Santa Maria la Mayor e São Miguel Arcanjo e pequenas lembranças de que um dia houve Igreja ou um aglomerado habitacional jesuíta. 

No Paraguai, perto de Encarnación e do rio Paraná temos Jesús de Tavarangue, Santísima Trinidad del Paraná,  San Cosme y San Damián, Santiago, Santa Rosa, San Ignacio Guazú e Santa Maria de la Fé. No total, o circuito é composto por 30 antigas missões. Sete no Paraguai, Oito no Brasil e 15 na Argentina. 

Uma coisa importante, deste total, sete missões foram inscritas na Lista da Unesco do Patrimônio Cultural Mundial. São uma no Brasil (São Miguel das Missões), quatro na Argentina (San Ignacio Mini, Santa Maria la Mayor, Nuestra Señora de Loreto e Santa Ana) e duas no Paraguai (Jesús Tavarangue e Santísima Trinidad del Paraná). 

Tem uma coisa: as quatro missões argentinas e a missão de São Miguel estão inscritas em conjunto, ou seja,  elas compartilham o mesmo número de referência (291) ou seja: São Miguel das Missões 291-1, San Ignacio Mini 291-2, Sant'ana 291-3, Loreto 291-4, Santa María la Mayor 291-5.

As duas reduções inscritas como Patrimônios Culturais pela Unesco no Paraguai compartilham o mesmo número de referência: 648. Assim, a Santísima Trinidad del Paraná é a 648-1 e a missão Jesús de Tavarangué é a 648-2.

Uma vitória da diplomacia e um milagre. Isso porque, só para dar um exemplo, os Parques nacionais do Iguaçu e Iguazú, um bem argentino-brasileiro na Lista da Unesco, têm dois registros diferentes. Um argentino de 1986 e um brasileiro de 1988. O Brasil, na época, disse que não havia no marco jurídico nacional, nada que possibilitasse uma “possessão” internacional, compartilhada ou duplamente comandada. Temia-se problemas de soberania. As quatro missões argentinas e a brasileira são um bem comum em termos de patrimônio. 

Em resposta ao título da postagem, o Roteiro, Rota, Circuito das Missões está vivo, respira e só precisa atenção e abordagem apropriada para colocá-lo na lista de desejo dos viajantes. Vamos falar disso.  

Quem está morto? 

Além do Circuito das Missões Jesuítas, muito se falou do Circuito Gaúcho e do Pólo Internacional Turístico do Iguaçu. A situação dos dois não está boa. O Mundo Gaúcho e o Polo Internacional Turístico do Iguaçu não estão respirando

O Mundo Gaúcho ou Gaucho (pronunciado gáucho em espanhol) incluiria os gaúchos que ocuparam os pampas – os grandes campos solitários e planos – dos dois lados da fronteira + Uruguai. Os europeus (leia-se jesuítas) enxergaram, na vastidão dos pampas, a oportunidade de criar gado e aí desenvolveram o seu falar, adaptaram, dos índios, a maneira de caçar ema na carreira usando boleadeira e a tomar mate. Da velha Europa adaptaram músicas e ritmos que resultaram no que se chama hoje de música gaúcha ou gauchesca. O circuito turístico “Mundo Gaúcho” foi pensado (e morreu no ovo?) para mostrar ao mundo toda esta riqueza de comidas, manejo de boi, músicas, danças, maneira de falar e tudo o que nasceu do contato dos forasteiros com o “topos”, o lugar, a topografia, a meteorologia e até o sufoco da paisagem cultural. O gaúcho com seu modo de falar gerou literaturas. Na Argentina existem as obras de Martín Fierro – que mostra esta maneira de falar. O turismo que seria cultural, rural, gastronômico, ecológico (onde desse) possibilitaria a entrada de “dinheiro” para comunidades que hoje sofrem no “paraíso”. Esse dinheiro “alisaria o pelo” de todos os moradores da querência, das prendas, das chinas e de todo mundo. Mas esse circuito não saiu do papel. No meu ver, oportunidade perdida.

E o Polo Internacional Turístico do Iguaçu? 

Este "Produto Integrado do Mercosul" está ligado ao "afastamento das fronteiras".  Quando sair do papel incluirá as cidades de Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este, Ciudad Presidente Franco, Mingá Guazú, Hernandarias (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina). A ideia é que o turista legalmente admitido em um dos três países, com uma só entrada legal, possa circular dentro da área ou dos limites do Pólo Turístico Internacional do Iguaçu. Que limites?

No caso do Brasil, o turista poderia circular em todo o município de Foz do Iguaçu. Ir às Cataratas, ir ao bairro de Três Lagoas onde está a prainha do Lago de Itaipu e onde se pode ver as ruínas da Base Náutica – (não é jesuítica) mas sim uma lembrança “arruinada” dos Jogos Mundiais da Natureza.

Exemplo

Se o turista sueco, que entrou no Brasil sem passar pela imigração, quiser ir a Santa Terezinha de Itaipu – um município logo a leste de Foz, seguindo a BR 277 – teria que voltar ao último país visitado, fazer a saída (passar pela migração Argentina ou paraguaia e receber um carimbo de saída no passaporte), daí entrar no Brasil, parar na área de controle de migração da PF em uma das pontes e receber um carimbo de entrada no passaporte. Aí sim, ele pode pegar um ônibus para o TTU de Foz do Iguaçu e de lá pegar um ônibus Metropolitano para ir a Santa Terezinha. Caso passe direto, um dia ele cairá na mão da PF e val ter que voltar à fronteira fazer todos os trâmites e até pagar uma multa por dia vivido no Brasil sem autorização. Muita gente cai nessa.Dos três países da fronteira, só a Argentina construiu uma estrutura a uns 50 quilômetros da Ponte Internacional antes de chegar à área de aproximação à ponte sobre a represa Urugua'í para controlar os turistas que possam querer ir a Buenos Aires sem passar pela migração – abusando do Pólo Turístico Internacional do Iguaçu.

Não confunda

Isso meso não confunda Polo Internacional Turístico do Iguaçu (PITI) com Instituto Polo Iguassu. O Pólo Iguassu é uma ótima organização que presta importantes serviços à comunidade. Mas não é um órgão com status de Mercosul. (Já relembro a história do PITI). Assim, na prática, o Pólo Turístico Internacional do Iguaçu está na UTI. Mas pode se dar bem se passar por um tratamento adequado e trazido de volta às discussões na RET - Reunião Especializada do Turismo do Mercosul e daí  à atenção das autoridades do turismo do Mercosul.  



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Visitando o Museu Diocesano de San Ignacio Guazu, Misiones, Paraguai

O museu Dicesano de San Ignacio Guazu pertence à Diocese de San Juan Bautista Misiones e Ñeembucu e é operado pelos Jesuítas   

Esta postagem não é exatamente sobre a história do museu ou da antiga Redução Jesuítica Guarani de San Ignacio Guazu, a primeira das missões organizada em território espanhol sob o comando da Companhia de Jesus, ou seja a Província Jesuíta na Bacia do Prata. 
A postagem é sobre a experiência da viagem que fiz em busca de dados para uma "expedição" à cidade no mês de abril durante a Procissão da Sexta Feira da Paixão que parte da capela do distrito (sentido brasileiro) de Tañarandy até a Igreja San Ignacio de Loyola no centro da cidade.