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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Resumo de atividades em comemoração aos 400 anos de Missões fundadas em 1626



Segue abaixo uma lista de eventos realizados ou programados ligados às comemorações dos 400 anos de São Nicolau, a primeira Redução do que hoje é Rio Grande do Sul e da Missão de Santa María del Iguazu, ou Santa María La Mayor en el Iguazú, originalmente na redondeza das Cataratas do Iguaçu (1626) e logo trasladadas para a localização em Santa María Misiones, Argentina. A Missão de Santa María também respondia pelo nome de Nustra Señora de las Nieves.  

No ano passado:

O primeiro passo

* Apresentação do Ensamble e Coral barroco-Jesuítico-Guarani da Capela de Música de San Ignacio Guazú,  nas Cataratas do Iguaçu, lugar da primeira fundação de Santa María; em Missa Solene na Catedral Diocesana Nossa Senhora de Guadalupe, na Paróquia N.S. do Perpétuo Socorro (Vila Yolanda) e para hóspedes do Hotel BlueTree by Hilton entre 21 e 25 de Junho de 2025 durante a realização do capítulo brasileiro do  Make Music Brasil.

Atividades e eventos realizados e previstos em 2026

* São Nicolau do Piratini, São Nicolau, Rio Grande do Sul, abertura 3 de maio 2026

* Partiu em 3 de maio de 2026, de São Nicolau a  14ª edição da "Cavalgada Trilha dos Santos Mártires das Missões". A Cavalgada entre 3 e 10 de maio contou com a participação de 400 cavaleiros em comemoração dos 400 anos da Missões no Rio Grande do Sul

* Peregrinos paraguaios partem de Assunção, Paraguai (Asunción, Paraguay) em 22 de abril de 2026, rumo a São Nicolau, com destino ao Santuário de Caaró (Ka'aro) na companhia do padre Rogério Melgarejo (SJ), portando a relíquia do Coração do Pe. Roque González de Santa Cruz passando atravessando cidades dos 30 Povos San Igacio, Loreto, Concepción de la Sierra, San Javier, Porto Xavier  com destino a Caaró com visitas aos Conjuntos Jesuíticos Guaranis de San Ignacio Mini e Nuestra Señora de Loreto. O retorno a Assunção se deu no dia 5 de maio após sete dias de peregrinação. 

* Jornada de Capacitación y Visibilización: Los pueblos de la margen del Río Uruguay en los 400 años de Santa María la Mayor”, realizada en la Casa de la Cultura de Concepción de la Sierra. Organização Instituto Superior Manuel Roberto Giudici, Instituto Superior Antonio Ruiz de Montoya e Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales da Universidad Nacional de Misiones (UNaM).

Apresentación Artística Ensamble de Camara de la Orquestra Sinfónica Nacional de Paraguay, regência maestra Victoria Sosa, Concepción de la Sierra

1º Seminário Internacional de História – 400 anos das Reduções Jesuítico-Guarani, Porto Xavier, Rio Grande do Sul, Brasil. 26 de maio de 2026

* I Seminario Internacional de Historia sobre los 400 años de las Reducciones Jesuíticas Guaraníes, 27 de maio, San Javier, Misiones, Argentina  

Exposição de trabalhos de cinco escolas de Santa María e Concepción de la Sierra 
no Centro de Interpretação e Recepção de visitantes do Conjunto Jesuítico-Guarani de Santa María  

* Semana Comemorativa dos 400 anos da Fundação da Redução de Santa Maria La Mayor (Semana Comemorativa de los 400 años de la Reducción de Santa María La Mayor    

O céu das Missões - uma das atividades (Foto: Camino de los Jesuítas / Oficial 

* Vivência recreativa e educativa "El Cielo de las Misones: Trás los pasos de Buenaventura Suárez", 30 de maio de 2026. CJG Santa Maria La Mayor. Buenaventura Suárez foi muito mais que um padre curioso que explorva os céus e fabricava seus próprios instrumentos. Ele mantinha contatos e intercambiava informações com cientistas da Europa, Rússia e até China. Morreu e foi sepultado em Santa María La Mayor. Suas pegadas deixaram marcas em reduções como San Cosme e San Damián e outras onde se encontram relógios do sol que continuam sendo utilizados.      

* Os 400 anos de Santa Maria del Iguazú en Santa Maria, no Conjunto Jesuítico -Guarani - (CJG), Patrimônio Cultural Mundial, 1 de junho, 2026. Comemoração em grande estilo com a presença de autoridades provinciais, moradores e comunidades mbya guarani.

* IV Congreso Internacional Misiones Jesuíticas Guaraníes e I Congreso de Misiones Jesuítas de Iberoamérica, organização Universidad de la Cuenca del Plata (Bacia do Prata) e Fundação Tierra Sin Mal (Terra Sem Mal / Yvy Marã'ey , 8 a 10 de junho de 2026, Posadas.

* Procissão Fluvial Santa Maria del Iguazú - em Puerto Iguazú, Argentina reprogramada para o dia 6 de setembro. Organização Diocese de Puerto Iguazú, Argentina

* Simpósio 400 anos das Missões Jesuítas na América do Sul, São Paulo 28 a 30 de setembro 

Em organização Foz:

* II Apresentação em Foz do Iguaçu do Ensamble  e Coral Barroco-Jesuítico-Guarani da Capela (Capilla) de Música do Museu Diocesano de Arte Barroco-Guarani de San Ignacio Guazú e municípios vizinhos, Departamento de Misiones, Paraguai / Paraguay. A primeira Missão jesuíta fundada na Província Jesuíta do Paraguai (a segunda foi fundada no atual Estado do Paraná: Nossa Senhora de Loreto (Atual município de Itaguajé). Data confirmada: 4 a 6 de novembro 2026     

domingo, 15 de março de 2026

Atenção: não são todas as missões que estão celebrando 400 anos. Confira!

Jesús: Construída para ser o Centro de todos os 30 Povos Jesuítas das Missões não chegou a ser concluída  (foto Wikipedia)

Uma pequena cronologia ou linha do tempo destacando as Missões Jesuíticas que este ano estão comemorando 400 anos. As comeorações no Rio Grande do Sul onde estão localizados remanesecentes e legados de Sete dos 30 Povos, estão acontecendo com sucesso. Como a imprensa necessita simplificar para divulgar, noto que está sendo passada a ideia que as festas no Rio Grande comemoram os 400 anos das Missões. Na lista abaixo, podemos ver que as datas de fundação são variadas e se extenderam de 1609 a 1767.   

1609 - San Ignacio Guazu, Misiones, Paraguai 417 anos

1610 - Nuestra Senhora de Loreto (Itaguajé), Guairá-Paraná 416 anos

1612 - San Ignacio Mini, Guairá-Paraná 414 anos 

1619 - Nuestra Señora de la Natividad del Acaray, PY, 407 anos

1626 - Santa Maria del Iguazu (Sta Mª La Mayor) 400 anos 

1626 - San Nicolau do Piratini (San Nicolás) 400 anos

1626 - San José, rio Tibagi - 400 anos 

1630 - San Ignacio Mini (2), Misiones, Argentina 396 anos

1632 - San Cosme y San Damián, Itapúa, Paraguai, 394 anos 

1706 - Santísima Trinidad del Paraná, Trinidad, Itapúa, PY 320 anos

1760 - Jesús Tavarangue - 266 anos

1767 - Os Jesuítas foram expulsos - há  259 anos. O projeto jesuíta, no lado espanhol, durou 158 anos. Foz do Iguaçu e três fronteras eram parte dele. O Complexo Jesuítico de Jesús (acima) não chegou a ser concluído. Tavarangue significa isso: cidade que era para ter sido "tipo" ex-futura cidade.   


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Minha Missão - o que quero com esse trabalho?

Assim deve ter parecido a Missão Jesuíta Santa Maria del Iguazu. Reprodução do filme The Mission / A Missão, fundada nas Cataratas há 400 anos
1626 - 2026 

Jackson Lima

Com o trabalho de divulgação da história das Missões Jesuítas entre os Guaranis na região conhecida como Paraquária, o que eu desejo é trazer a Foz do Iguaçu e às Três Fronteiras a consciência de pertencimento da região a esta história.

Como resultado, gostaria de ver Foz do Iguaçu, pelo lado brasileiro, sendo um "portão de entrada" para os 30 Povos das Missões oferecendo atenção especial às expedições que tenham início ou terminem nas Cataratas.

Isto significaria ter agências de viagens, operadores, guias, equipes preparados para fomentar, incentivar, promover e realizar excursões, expedições aos legados desses antigos 30 Povos. Hoje a organização de viagens ou expedições a estas área ainda se recente da falta de informações e de sentido de pertencimento.

Os ministerios, Secretarias e organismos do turismo dos quatro países, já tem propostas rotas e roteiros que necessitam dessa injeção de pertencimento e uma nova visão. 

Dos 30 povos, oito estão no Paraguai, 15 na Argentina e sete no Rio Grande do Sul. Todos eles foram fundados por missões jesuítas e ocupavam uma área que ia do extremo Oeste do atual Paraná (antigo Guairá), o Paraguai, via Argentina, até redondezas de Porto Alegre,  entrando no Uruguai, ao leste. Eram povos com suas estâncias e ervais associados. 

Hoje, em Foz do Iguaçu não existe disponibilidade ou oferta de organização de visitas ou até informação ordenada sobre as rotas levando, como consequência a concentração de visitas apressadas só ao complexo arqueológico de San Ignacio Mini, na Argentina ou a escolha de um entre os oito, sitios arqueológicos do Paraguai.  Visitantes individuais ou famílias são obrigadas a contratar taxis ou traslados bate-e-volta com puco tempo de espera.

Hoje os 30 Povos das Missões correspondem, grosso modo, a 30 municípios localizados no Brasil (Rio Grande do Sul), Paraguai, Argentina e Uruguai. 

Já existe uma "Associação dos 30 Povos" no modelo multilateral com presidência pró-têmpore rotativa no estilo Mercosul que trabalha para chamar a atenção para a cultura, história, espiritualidade da região criadas nos úlimos 400 + anos,  que unem os povos nos quatro países com patrimônios que conversam entre si e com os das missões jesuítas na Bolívia. 

Tudo ajuda a formar aquela estrutura que apoia a  formação de uma identidade missioneira bem mais extensa que as interpretações atuais e separadas da riqueza da cultura gaúcha, missioneira, ligadas ao trabalho jesuíta. 

Este mês, no domingo logo após o 16 de agosto, os argentinos da Diocese de Iguazu, participam de uma peregrinação ao Santuário da Santa María del  Iguazú ou Santa Maria do Iguaçu, comemorando assim os 400 anos da fundação da Redução Jesuítica Santa Maria del Iguazu nas Cataratas do Iguaçu. Confira cobertura da peregrinação no ano passado em link no final da página.


Orquestra e Coro da Capela de Música de San Ignacio Guazú, um dos 30 Povos das Missões nas Cataratas do Iguaçu. A visita dos músicos anunciou  uma série de atividades que acontecerão em Foz do Iguaçu com participação extensão a Puerto Iguazu, Franco e Hernandarias em 2026. San Ignacio foi o primeiro dos 30 Povos   

Notas:

Relembre a cobertura da Peregrinação de Santa Maria del Iguazu 2024 

A lista dos 30 Povos

Brasil - RS:

São Miguel Arcanjo  

São Lourenço Mártir 

São Nicolau

São Francisco de Borja 

Santo Angelo Custódio  

São Luiz Gonzaga

São João Batista 


Paraguai:

San Igacio Guazu

Santa Maria de Fé

Santa Rosa de Lima

Santiago Apóstol

San Cosme y San Damián

Itapúa 

Santísima Trinidad del Paraná 

Jesus de Tavarangue


Argentina:

Corpus 

San Ignacio Mini 

Loreto

Santa'Ana

Candelarias

San Carlos

San José de Itacuá

Martires del Japón

San Javier

Santa Maria la Mayor

Concepción

Apóstoles

Santo Tomé

La Cruz

Yapeyu

  

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Como os Mbya Guarani se reinventaram após serem expulsos da Ilha Yacyretá?

Foi-lhes tirada a ilha paradisíaca, mas não o espírito de luta e de reafirmação da sua identidade como povo indígena Mbya Guarani. Esta é a história dos membros da comunidade Pindó, em San Cosme y Damián, Itapúa, narrada por um de seus principais protagonistas, o poeta, escritor, professor e jornalista indígena Brigido Bogado, fundador da primeira escola indígena da região*


Professor Brigido Bogado sob uma foto que lhe rende homenagem na escola que ele fundou. Foto de Desirée Esquivel co-fundadora do El Otro País 


Por Brigido Bogado da comunidade Mbya Pindó, 
San Cosme y Damián, Itapúa, Paraguai

Era extensa a ilha Jasy retã, na região de Itapúa, onde hoje fica a grande hidrelétrica do mesmo nome, margeada pelo majestoso, pacífico e às vezes terrível rio Paraná. Lá, o povo indígena Mbya Guarani vivia pacificamente e sem muitas preocupações.

O rio Paraná oferecia peixes abundantes e variados. A densa selva que então existia forneceu seus frutos, sua rica fauna, os remédios necessários para equilibrar a alma e o corpo, porque como diziam os opygu'a (líderes religiosos), as doenças vêm nos alertar sobre a falta de harmonia, do desequilíbrio entre a alma e o corpo.

A ilha Jasy retã (ou Yacyretá, como se escreve oficialmente, mantendo a antiga grafia do guarani, que significa 'Terra da Lua') era como a Yvy Mara'e'y, a mítica Terra sem Mal, para os habitantes Mbya , aqueles que andavam nus e também seminus, porque na mente e na alma dos Mbya não havia maldade, não havia malícia ou ideia pecaminosa de andar sem roupa. Para nós, mostrar o corpo é algo natural. O corpo tem um propósito específico, reproduzir e permitir que as gerações continuem.

Sim, às vezes você podia ouvir o mbokapu (barulho de armas), música alta, talvez comemorando um aniversário. Foi exatamente isso que se percebeu naquela época, senhores. 


80% da Ilha foi inundado. Foto Museu de História Natural do Paraguai
 (Parte do que restou são as Dunas de San Cosme y San Damián) 

(

O anúncio de uma grande inundação

No grande teko'a eram realizados os ritos, no opy (recinto sagrado) liderado pelos yvyra'ija (líderes religiosos) e toda a comunidade comparecia. Este rito foi realizado no início da primavera, época em que a Mãe Natureza se reinicia em todos os aspectos.

Os líderes religiosos pediram esclarecimento e prenunciaram o que poderia acontecer. E justamente num desses ritos anunciaram que as águas do rio Paraná subiriam muito e inundariam tudo; mas não como quase sempre acontecia, que as águas subiam e depois baxavam. O anúncio dizia que desta vez a água não baixaria mais, a inundação seria permanente e nós, Mbya, teríamos que procurar outros lugares para viver.


O anúncio feito durante aqueles ritos, segundo os líderes religiosos, falava que haveria um grande estrondo nas proximidades, como se enormes raios do céu caíssem sobre as pedras, as pedras saltassem no ar e o local seria completamente e permanentemente modificado.

E foi exatamente assim. Depois de um tempo desses anúncios, vieram as enchentes, a água do rio Paraná transbordou sobre nossas terras e não recuou. As grandes explosões ocorreram e os Mbya fugiram das águas o melhor que puderam, com nossos animais, nossas canoas e outros ajudados por alguns Juru'a (não indígena), que se solidarizaram com eles.

As obras da grande barragem começaram. Em 1973, foi assinado em Assunção o Tratado de Yacyretá, para a construção do grande projeto hidrelétrico. De acordo com as leis, deveria ter sido feito um trabalho prévio com os habitantes originários da ilha, para proceder a sua  transferência, mas tal coisa nunca aconteceu com os Mbya. Se aconteceu com muitos não indígenas, os Juru'a, que sabendo o que iria acontecer, construíram casas precárias, fizeram plantações e criaram alguns animais domésticos, para depois serem indenizados, como se fossem os antigos habitantes da ilha.

Nada disso aconteceu com os Mbya. Os membros do meu povo tiveram que deixar a ilha à força. Fomos expulsos. Algumas famílias mudaram-se para terras argentinas, onde também havia alguns colonos Mbya. Outros se estabeleceram nos arredores da cidade de Ayolas. Outras famílias partiram para San Ignacio, Santa María, San Juan de Misiones. Outros emigraram para a zona do alto Paraná e Itapúa, onde ainda existiam montanhas e territórios virgens, todos de influência Mbya. Suas rotas eram extensas e cobriam grandes áreas.

Ajuda solidária

Na década de 1980, após o início da construção da barragem, algumas pessoas se interessaram pela difícil situação de abandono em que viviam as famílias Mbya perto da cidade de Ayolas, Misiones e outros locais próximos da barragem.

Muitos dos que foram expulsos da Ilha de Jacyretá sobreviveram por conta própria, em situações muito precárias, sem ter moradia própria. Esta realidade chamou a atenção dos membros da Equipe Nacional de Missões, da Conferência Episcopal Paraguaia (CEP), organização que vinha trabalhando na assistência aos povos indígenas.

Desta forma, com autorização do então bispo de Encarnação, Dom Juan Bockwinkel, os Mbya afetados pela construção da barragem passaram a trabalhar com o coordenador da equipe, o padre Wayne Robins, a advogada Mirna Vázquez, já falecida, que era especialista em direito indígena e outras pessoas.

Da região de Itapúa, Crescencia Carísimo e o autor desta nota, Brigido Bogado, juntaram-se à equipe.

A primeira coisa que fizemos foi um censo para registar todas as famílias e pessoas Mbya que estavam na região, expulsas das suas terras e abandonadas pelas autoridades.

Muitas reuniões foram realizadas com os líderes. Muitos deles não queriam saber nada sobre como lidar com a papelada, pois diziam, a partir de sua visão de indígenas: “Ñande Ru kuery (nossos deuses) nos colocaram nestas terras para viver e nos desenvolver livremente”. Nada mais era necessário para eles.

Depois de muitas conversas, um grupo concordou em realizar os procedimentos que os membros da Equipe de Missões aconselharam a fazer junto às autoridades da Entidade Binacional Yacyretá, responsável pela construção da barragem. Foi um longo processo para eles reconhecerem que havia famílias Mbya que viviam na ilha antes da construção da hidrelétrica, que nunca foram levadas em conta, que foram expulsas arbitrariamente.

Por fim, reconheceram oficialmente 28 famílias como ex-habitantes. A EBY concordou em comprar cerca de 425 hectares de terras de dois proprietários que concordaram em vender, para localizar as nossas famílias, nos arredores da cidade de San Cosme y Damián.

Em Outubro de 1989, poucos meses após a derrubada do governo do General Stroessner, entramos nas nossas novas terras. Decidimos dar à nossa nascente comunidade o nome de Pindó, que corresponde a uma palmeira tradicional da região (nome científico: Syagrus romanzoffiana), que para os Mbya é uma planta muito especial, porque utilizamos todas as suas partes, o tronco, o folhas, os frutos, tanto como alimento como para nossas construções, bem como para fabricar implementos, utensílios, artesanato, etc.

O presidente que derrubou o ditador Stroessner, o general Andrés Rodríguez, veio visitar a nossa comunidade e nos deu o título de propriedade dos 425 hectares, com o qual conseguimos garantir que não poderiam mais nos tirar essas terras. Rodríguez também inaugurou a escolinha indígena que construímos e da qual fui o principal divulgador e o primeiro professor indígena, tanto que no início funcionou na minha casa, onde dava aula para as crianças, até que conseguimos construir uma sala de aula. Nossa escola, que cresceu muito nesse tempo, é a primeira escola indígena que começou a funcionar em todo o Departamento de Itapúa.

Grupo de Teatro Yvy Mara'e'y  da Comunidade Pindó

Uma comunidade modelo

Depois de ficarmos muito tempo sem terra, abandonados, morando de qualquer forma em qualquer lugar, finalmente tínhamos um novo lugar para construir nossa comunidade como povo indígena. Havíamos sido expulsos da nossa ilha paradisíaca, mas tínhamos novamente um lugar que era legalmente nosso, não tão grande quanto a nossa cultura exige, mas importante para seguirmos em frente.

A Comunidade Pindó está localizada a 368 quilômetros ao sul da capital Assunção, a 78 quilômetros de Encarnación, capital do departamento de Itapúa e a 18 quilômetros das cidades de San Cosme e San Damián. A estrada pavimentada que leva a San Cosme passa pela nossa comunidade.


Atualmente são 46 famílias morando em Pindó. Temos serviço de electricidade, pagamos o consumo, embora acreditemos que deveria ser gratuito para os Mbya, como reparação por nos terem expulsado da nossa casa, para a construção da barragem.

Ao lado da estrada que leva a San Cosme y Damián

Pindó vem se organizando, buscando ser uma comunidade indígena modelo no resgate de nossas tradições ancestrais, embora ainda precisemos realizar muitas conquistas. Nossas famílias se dedicam à agricultura e aos trabalhos esporádicos, já que os indígenas nunca recebem o que está estipulado na lei. 

Procuramos oferecer alternativas ao turismo, principalmente com o artesanato que nossos avós nos ensinaram. Hoje contamos com artesãos hábeis de nossa comunidade que fazem lindos trabalhos de escultura em madeira kurupika'y, cedro peterevy, folhas de pindó, além das linhas de cestaria Mbya com tiras de takuarembo, ñandypa e guembe. As amostras esculpidas em pedaços de madeira recriam figuras de diversos animais e outros objetos, que ficam expostos em barracas de vendas ao longo do percurso, bem como em feiras periódicas em locais turísticos.

Um fator muito apreciado é que os meninos e meninas de Pindó formaram um Coral e um Grupo de Dança, conhecido como Teko Marãe'y, que tem feito apresentações bem sucedidas em feiras internacionais do livro, festivais, eventos acadêmicos e turísticos.

Em nossa escola aprendemos desde a pré-escola até o primeiro ano, com professores indígenas e não indígenas. Temos muitos jovens, meninas e meninos, que estudam na universidade e trabalham no comércio. No meu caso particular, além de poeta e escritor, professor, membro da Sociedade Paraguaia de Escritores (SEP), publicando livros, pude concluir meus estudos de jornalismo na Universidade Católica de Encarnación, percorrendo os 78 quilômetros até lá e depois retornando à, comunidade, no meio da noite. Dessa forma sacrificada, em 2021 me graduei com honras, tornando-me o primeiro indígena Mbya Guarani a ser formado em Ciências da Comunicação, com ênfase em Jornalismo. Hoje me alegra fazer parte da equipe de jornalismo do El Otro País como colaborador e assessor nas questões indígenas.

O artesanato é um importante modo de preservar a cultura e ajudar economicamente 



Podemos afirmar que a qualidade de vida que os habitantes originários da Ilha Jasy Retã tinham, antes da construção da barragem, infelizmente ficou para trás, pois a extensão de terra onde hoje está localizada a nossa Comunidade já não possui as riquezas naturais que costumavam ser abundantes, como os peixes variados, os frutos abundantes das montanhas, a fauna variada e o céu imenso respirando ar de liberdade, mas mesmo assim nos organizamos para sustentar uma comunidade que busca resistir às mudanças culturais e seguir em frente, mantendo viver a nossa identidade Mbya, adaptando-nos aos novos tempos, mas sem esquecer o que os nossos antepassados ​​nos deixaram. 

É o espírito das soluções com as quais procuramos responder à situação dos povos indígenas, que continua crítica em diversas regiões do país.

Repórter do Canal 8 com o professor e jornalista mbya Brigido Bogado e a artesã Irma Cabral com uma de suas peças



Notas:
* Abertura de Andrés Colmán Gutiérrez
Com exceção da primeira foto da jornalista Desirée Esquivel e a foto da Ilha, as demais fotos são do acervo no Facebook do professor Brigido Bogado. San Cosme y Damián é um município do Departament de Itapúa, Paraguai que abriga a antiga Missão Jesuita de San Cosme y San Damián onde a igreja principal funciona até hoje. A missão é uma das sete altamente preservadas que formam o patrimônio cultural do Paraguai. Duas são patrimônio mundial / UNESCO  
Postado originalmente em 29 de abril de 2022 - Artigo original




segunda-feira, 8 de julho de 2024

Turismo Religioso: Paraguai 2 a Zero! Você acha que já viu tudo? Viu não, confira!

Dom Marco Pozza em embarcadouro no Lago Ypacaraí em San Bernardino. Ao fundo o Cerro Patiño que teria inspirado o aviador Saint-Exupéry ao visitar a cidade à beira do lago


Escultura do artista Fernando Amberé Feliciángeli ajuda a enxergar o elefante engolido pela jibóia. Há uma lição a ser aprendida na imagem. O padre aproveitou e falou dela 


Tem um programa italiano transmitido pela TV estatal RAI dedicado ao turismo religioso no qual o repórter é um padre. É o Dom Marco Pozza e o programa se chama "A sua immagine" ( À sua Imagem). 

O programa de TV é patrocinado (abençoado) por uma agência de turismo especializada em peregrinações cristãs católicas chamada Opera Romana Pellegrinaggi. Não é qualquer agência. A ORP pode ser chamada de "braço turístico" do Vaticano e é dependente do Vicariato di Roma. Nas "reportagens" é melhor dizer "documentários",  um agente de viagem acompanha o padre-repórter. Esse "agente" é o padre Giovanni Biallo, que acompanha as expedições e trás o apoio aos destinos visitados já que o Vaticano tem uma Lista oficial de lugares oferecidos aos fiéis e clientes deste segmento do turismo.  

Um documentário inteiro dividido em oito episódios  (puntate) dedicado ao Paraguai está sendo entregue ao público religioso  preferentemente ao público de fala italiana mas aberto também aos curiosos. Abaixo vou colocar os links para as oito partes, das quais já saíram 5. 

Com o Paraguai 2 x 0 no título, me refiro a uma sacada fantástica da Embaixada do Paraguaia junto à Santa Sé. A batuta é da embaixadora María Leticia Casati Caballero.  Graças a isso, a "Opera Romana Pelegrinaggi" já incluiu o Paraguai na lista dos destinos religiosos ou seja destinos aos quais as viagens podem ser confortavelmente feitas por pessoas que também possuem motivação religiosa. No caso do Paraguai são as Missões Jesuíticas, as Missões Franciscanas e o interiorzão do país com suas inúmeras igrejas, obras de arte, devoções, festas locais além do que se encontra, sem dúvida, na capital do país. 

O Brasil, estou sabendo, já tem gente conversando com a Opera Romana Pellegrinagi, mas o contato ainda é muito primitivo, quero dizer, inicial. Eu quero mais.

Links / Enlaces

Trailer que anuncia a série com a autoria da Opera Romana Pellegrinaggi e Secretaria Nacional de Turismo. Abre com música composta por Ennio Morricone 

Primeiro Episódio - Chegada ao Paraguai e introdução (Youtube)

Segundo Episódio - Asunção e imagens gerais do País (Youtube)

Terceiro Episódio  - Lago Ypacarai - Saint Exuperry, um chapeú ou um elefante engolido por uma jibóia (mbói) entre outras muitas belas imagens. (youtube)

Quarto Episódio - Caacupé, o santuário, a Virgem  Azul, a Mulher Paraguaia que soube levantar um País, Areguá, Artesanato em argila, Jesus na Casa de Jairo  (Tálitha Cúmi ou  em guarani: Mitãkuña, ndéve haʼe: Epuʼã! Turismo religioso inclui isso e o padre Pozza pregou bonito. (Youtube)    

Quinto Episódio  - A estação ferroviária de Pirayu, a caminho de San Ignacio Guazu. O padre lembra a chegada de Jesus em sua terra natal. "Ninguém é profeta em sua própria terra" (Youtube)


É um elefante engolido por uma jibóia, segundo a criança que desenhou.  Mas os adultos enxergaram um chapéu (sombrero). A criança então explicou e desenhou de novo: é o elefante dentro da jibóia. "Os adultos precisam de explicações" - disse o menino


Sexto Episódio Imgens de San Ignacio Guazu, Santa rosa de Lima e San Cosme y San Damián. Lembra declarações do Papa João Paulo II e do Papa Francisco sobre as missões como modelo e prova de que é possível construir uma sociedade justa  e de respeito por todos (Youtube)

Sétimo Episódio O programa abre mostrando a Ponte Internacional Roque Gonzalez de Santa Cruz e a cidade de Encarnação e o Santuário da Virgem de Itacuá com belas vista do rio Paraná. A próxima parada é Reduçaõ de Santísima Trinidad del Paraná na atual cidade de Trinidad, Itapúa. O conceito de Terra sem Mal dos guarani facilitou a evangelização porque, segundo Dom Giovanni Biallo, ela tem a "mesma perspectiva da vida cristã". Grandes imagens de Trinidad à noite. (Youtube)

Oitavo Episódio  O último episódio da série destaca Bella Vista ou Bella Vista Syr para diferenciá-la de Bella Vista, Amambay, fronteira com o Mato Grooso do Sul. O tema de Bella Vista é a erva mate.  Em seguida entra em cena a Redução de Jesús de Tavarangue, ao lado de Trinidad. Esta missão não chegou a ser concluída. Em Jesús também foi apresentado o show com projeção noturna.   (Youtube)

Nono Episódio - Neste último episódio o padre Marco Pozza resume  todo o material que subtitulo como"Alla ricerca dele raggioni della speranza cristiana (Em busca das razões da esperança cristã). Fechando com chave de ouro  ele disse: "Conoscere Il Paraguay è conoscere un pò meglior la nostra fede"   (Conhecer o Paraguai é conhecer um pouco melhor a nossa fé"). É isso que eu digo o tempo todo! 


P.S: Compartilho este texto de minha visita a Jesús




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Entendendo os 30 Povos das Missões: trocando em miúdos

Visualização dos 30 Povos das Missões no Paraguai, Argentina e Brasil (Rio Grande do Sul) por cores 


 



A primeira coisa que me vem à mente quando penso nos 30 Povos das Missões é que eles são um conjunto. Formam um todo. A segunda é que eles estão em três países. São oito no Paraguai, 15 na Argentina e sete povos no Rio Grande do Sul.  No total, a obra dos jesuítas guarani foram mais de 80 Povos. Sobraram 30 assim que dá para identificar. 

Entre povos que não vingaram estão o de Hernandarias e o da Boca do rio Monday (PY) e Santa Maria do Iguaçu possivelmente no lado argentino do Parque Nacional do Iguaçu. A primeira imagem, acima é perfeita para visualizarmos já que estão separadas por cores. 


Vizualisação dos 30 povos das Missões acompanhada por uma lista lateral. 

Visitando o Museu Diocesano de San Ignacio Guazu, Misiones, Paraguai

O museu Dicesano de San Ignacio Guazu pertence à Diocese de San Juan Bautista Misiones e Ñeembucu e é operado pelos Jesuítas   

Esta postagem não é exatamente sobre a história do museu ou da antiga Redução Jesuítica Guarani de San Ignacio Guazu, a primeira das missões organizada em território espanhol sob o comando da Companhia de Jesus, ou seja a Província Jesuíta na Bacia do Prata. 
A postagem é sobre a experiência da viagem que fiz em busca de dados para uma "expedição" à cidade no mês de abril durante a Procissão da Sexta Feira da Paixão que parte da capela do distrito (sentido brasileiro) de Tañarandy até a Igreja San Ignacio de Loyola no centro da cidade.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Quais produtos Turísticos do Mercosul estão mortos e enterrados? Quais cambaleiam? E quais respiram?

 

Parlamento do Mercosul em Montevidéu (Foto: Câmara dos Deputados, Brasil)

Nota: Este texto foi escrito originalmente em junho de 2007. Ele sofreu algumas modificações. O propósito dele é não deixar esquecer os Produtos Integrados do Mercosul. Eles fazem falta!

Já que o Mercosul inaugurou o seu Parlamento (funciona na Secretaria Administrativa do Mercosul – SAM em Montevidéu, Uruguai) e já que o Mercosul, como “instituição”, começa a funcionar, é hora do Notas do Turismo lembrar que chegou a hora de fazer decolar os chamados “Circuitos Internacionais” na área do turismo. 

Alguns desses circuitos já têm nome. É o caso do (1) Mundo Gaúcho, do (2) Mundo Jesuítico ou Circuito Internacional das Missões Jesuíticas e do (3) Pólo Internacional Turístico do Iguaçu. Está na hora de fazer tudo isso sair do papel. Por quê? Porque a demora da implementação desses “Circuitos” está ajudando a manter milhares de pessoas, regiões inteiras na pobreza. Sem que esses circuitos do Mercosul existam segundo as regras do Mercosul, se perpetua o reino da demagogia, da politicagem, do abuso. Onde? Como? Vejamos primeiramente o Circuito Internacional das Missões Jesuíticas

Este circuito é trinacional. Argentina, Brasil e Paraguai. Na Argentina fica na província de Misiones – que, como o nome sugere, deve ter Missões. E tem. Confira aqui e agora quais são. 

Acompanhando a barranca do Rio Paraná temos o que restou das antigas Missões de: Corpus, San Ignacio Miní, Loreto, Santa Ana e Candelária. Mais para o Oeste,  ou seja do Rio Paraná para o Rio Uruguai, temos San José, Apóstoles, Concepción, Mártires, San Javier e Santa Maria la Mayor. Ao longo do rio Uruguai estão: San Carlos, Santo Tomé, La Cruz e Yapeyú. 

No Brasil, que dizer no Rio Grande do Sul, temos as ruínas físicas de São Nicolau, São Borja, Santo Ângelo, São João, São José, São Luis e São Lourenço. Na lista argentino-brasileira, ou gaúcho-misionera há ruínas e ruínas. Quer dizer impactantes como San Ignacio Mini, Santa Maria la Mayor e São Miguel Arcanjo e pequenas lembranças de que um dia houve Igreja ou um aglomerado habitacional jesuíta. 

No Paraguai, perto de Encarnación e do rio Paraná temos Jesús de Tavarangue, Santísima Trinidad del Paraná,  San Cosme y San Damián, Santiago, Santa Rosa, San Ignacio Guazú e Santa Maria de la Fé. No total, o circuito é composto por 30 antigas missões. Sete no Paraguai, Oito no Brasil e 15 na Argentina. 

Uma coisa importante, deste total, sete missões foram inscritas na Lista da Unesco do Patrimônio Cultural Mundial. São uma no Brasil (São Miguel das Missões), quatro na Argentina (San Ignacio Mini, Santa Maria la Mayor, Nuestra Señora de Loreto e Santa Ana) e duas no Paraguai (Jesús Tavarangue e Santísima Trinidad del Paraná). 

Tem uma coisa: as quatro missões argentinas e a missão de São Miguel estão inscritas em conjunto, ou seja,  elas compartilham o mesmo número de referência (291) ou seja: São Miguel das Missões 291-1, San Ignacio Mini 291-2, Sant'ana 291-3, Loreto 291-4, Santa María la Mayor 291-5.

As duas reduções inscritas como Patrimônios Culturais pela Unesco no Paraguai compartilham o mesmo número de referência: 648. Assim, a Santísima Trinidad del Paraná é a 648-1 e a missão Jesús de Tavarangué é a 648-2.

Uma vitória da diplomacia e um milagre. Isso porque, só para dar um exemplo, os Parques nacionais do Iguaçu e Iguazú, um bem argentino-brasileiro na Lista da Unesco, têm dois registros diferentes. Um argentino de 1986 e um brasileiro de 1988. O Brasil, na época, disse que não havia no marco jurídico nacional, nada que possibilitasse uma “possessão” internacional, compartilhada ou duplamente comandada. Temia-se problemas de soberania. As quatro missões argentinas e a brasileira são um bem comum em termos de patrimônio. 

Em resposta ao título da postagem, o Roteiro, Rota, Circuito das Missões está vivo, respira e só precisa atenção e abordagem apropriada para colocá-lo na lista de desejo dos viajantes. Vamos falar disso.  

Quem está morto? 

Além do Circuito das Missões Jesuítas, muito se falou do Circuito Gaúcho e do Pólo Internacional Turístico do Iguaçu. A situação dos dois não está boa. O Mundo Gaúcho e o Polo Internacional Turístico do Iguaçu não estão respirando

O Mundo Gaúcho ou Gaucho (pronunciado gáucho em espanhol) incluiria os gaúchos que ocuparam os pampas – os grandes campos solitários e planos – dos dois lados da fronteira + Uruguai. Os europeus (leia-se jesuítas) enxergaram, na vastidão dos pampas, a oportunidade de criar gado e aí desenvolveram o seu falar, adaptaram, dos índios, a maneira de caçar ema na carreira usando boleadeira e a tomar mate. Da velha Europa adaptaram músicas e ritmos que resultaram no que se chama hoje de música gaúcha ou gauchesca. O circuito turístico “Mundo Gaúcho” foi pensado (e morreu no ovo?) para mostrar ao mundo toda esta riqueza de comidas, manejo de boi, músicas, danças, maneira de falar e tudo o que nasceu do contato dos forasteiros com o “topos”, o lugar, a topografia, a meteorologia e até o sufoco da paisagem cultural. O gaúcho com seu modo de falar gerou literaturas. Na Argentina existem as obras de Martín Fierro – que mostra esta maneira de falar. O turismo que seria cultural, rural, gastronômico, ecológico (onde desse) possibilitaria a entrada de “dinheiro” para comunidades que hoje sofrem no “paraíso”. Esse dinheiro “alisaria o pelo” de todos os moradores da querência, das prendas, das chinas e de todo mundo. Mas esse circuito não saiu do papel. No meu ver, oportunidade perdida.

E o Polo Internacional Turístico do Iguaçu? 

Este "Produto Integrado do Mercosul" está ligado ao "afastamento das fronteiras".  Quando sair do papel incluirá as cidades de Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este, Ciudad Presidente Franco, Mingá Guazú, Hernandarias (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina). A ideia é que o turista legalmente admitido em um dos três países, com uma só entrada legal, possa circular dentro da área ou dos limites do Pólo Turístico Internacional do Iguaçu. Que limites?

No caso do Brasil, o turista poderia circular em todo o município de Foz do Iguaçu. Ir às Cataratas, ir ao bairro de Três Lagoas onde está a prainha do Lago de Itaipu e onde se pode ver as ruínas da Base Náutica – (não é jesuítica) mas sim uma lembrança “arruinada” dos Jogos Mundiais da Natureza.

Exemplo

Se o turista sueco, que entrou no Brasil sem passar pela imigração, quiser ir a Santa Terezinha de Itaipu – um município logo a leste de Foz, seguindo a BR 277 – teria que voltar ao último país visitado, fazer a saída (passar pela migração Argentina ou paraguaia e receber um carimbo de saída no passaporte), daí entrar no Brasil, parar na área de controle de migração da PF em uma das pontes e receber um carimbo de entrada no passaporte. Aí sim, ele pode pegar um ônibus para o TTU de Foz do Iguaçu e de lá pegar um ônibus Metropolitano para ir a Santa Terezinha. Caso passe direto, um dia ele cairá na mão da PF e val ter que voltar à fronteira fazer todos os trâmites e até pagar uma multa por dia vivido no Brasil sem autorização. Muita gente cai nessa.Dos três países da fronteira, só a Argentina construiu uma estrutura a uns 50 quilômetros da Ponte Internacional antes de chegar à área de aproximação à ponte sobre a represa Urugua'í para controlar os turistas que possam querer ir a Buenos Aires sem passar pela migração – abusando do Pólo Turístico Internacional do Iguaçu.

Não confunda

Isso meso não confunda Polo Internacional Turístico do Iguaçu (PITI) com Instituto Polo Iguassu. O Pólo Iguassu é uma ótima organização que presta importantes serviços à comunidade. Mas não é um órgão com status de Mercosul. (Já relembro a história do PITI). Assim, na prática, o Pólo Turístico Internacional do Iguaçu está na UTI. Mas pode se dar bem se passar por um tratamento adequado e trazido de volta às discussões na RET - Reunião Especializada do Turismo do Mercosul e daí  à atenção das autoridades do turismo do Mercosul.  



domingo, 11 de dezembro de 2022

Jesús de Tavarãngue: era "para ter sido" uma cidade (capital) de todas as Missões jesuíticas

Richard Gómez recebe os visitantes em Jesús de Tavarangue 

 O Paraguai tem "sete ruínas" Jesuíticas. Três no departamento de Itapúa e quatro no departamento de Misiones. Não é Misiones, Argentina. O Paraguai também tem um departamento chamado Misiones. Das sete, só duas estão na lista da Unesco do Patrimônio Cultural Mundial: Jesús e Santísima Trinidad del Paraná. 

Das três que conheci junto com um grupo de jornalistas paraguaios convidados pela Secretaria Nacional de Turismo (SENATUR), a que mais me demanda esforço para escrever sobre ela é a que se chama Jesús de Tavarangué. Na viagem conhecemos Santísima Trinidad del Paraná, Jesús (na mesma noite) e San Cosme y San Damián, pela manhã do dia seguinte. 

Ainda no começo da viagem, antes de deixarmos a Ruta I que parte de Ciudad del Este em direção a Assunção e girar à esquerda para a Ruta 6 rumo a Encarnação, perguntei alguma coisa à turismóloga e coordenadora da viagem, Shirley Pedrozo, sobre as ruínas. Ela respondeu e acrescentou que a palavra "ruínas" não está mais em uso e disse por quê. Uma ruína se reduz a pedras e  está abandonada Já as missões que estávamos a caminho para conhecer são muito mais que isso. Elas contam uma história, dá para ver a história em sua silenciosa continuidade e algumas delas ainda são alvo de uso moderno. 

Entendida esta parte passei para outra e desta vez envolvendo outros jornalistas na conversa. Quiz saber o que significa o "rangué" de tavarangué. Expliquei que eu suspeitava que "rangué" quer dizer que deu errado? Que ao invés de uma coisa deu outra? Trazer o guarani à tona em uma conversa com paraguaios significa tocar em um assunto que é parte da alma do país. O guarani é falado e entendido por mais de 90% da população. A explicação começa do começo. 

Jesús, lembraram, foi construída para ser a futura capital de todas as missões. Para ser uma "tava" que quer dizer "cidade". Em guarani, a "futura cidade" seria tavarã (rã é uma partícula de futuro das coisas). Ou seja tava+rã. 

O guarani, em sua sabedoria, também tem uma partícula para o passado das coisas. É a partícula "Kue" que se escreve "ngue" depois de som nasal. É mole? O resultado é Tavarãngue! Explicou Shirley: "Jesús foi projetada para ser o centro de todos os povos jesuítas mas não foi concluída por causa da expulsão da congregação. Por isso o nome quer dizer  "cidade que iria ser mas não foi". Outra tradução desta vez em espanhol é "ciudad que hubiera sido". 

Jesús: Construída para ser o Centro de todos os 30 Povos Jesuítas das Missões (foto Wikipedia)



Alguma coisa bateu forte em mim e eu senti um arrepio geral nos braços. Isso acontece quando detecto sentimentos e energias complexas. Me maravilhei. 
Então Tavarangue não é nome qualquer para um lugar. Assim como Missão Jesus de Nazaré.  É o nome de uma tragédia, de uma realidade, de algo pesado na história das tentativas de colonização na América do Sul, da história humana. No dia seguinte quando finalmente chegamos a Jesús, Richard Gómez, que recepcionou o grupo acrescentou que o nome oficial da antiga redução é "Jesús, apelidada Tavarangué". Me liguei no "apelidada".     

Desembocadura do Rio Monday, primeiro local da Missão que então se chamou Jesús del Monday 


A segunda informação com carga emocional muito forte veio ainda do Richard Gómez, quando ele disse que Jesús foi estabelecida pela primeira vez em 1685  às margens do Rio Monday, próximo à desembocadura dele no Rio Paraná, abaixo do Salto Monday. Partindo do atual Marco das Três Fronteiras, descendo o rio Paraná, em menos de meia hora, a remo, chegaríamos à área da antiga redução. Se é fácil chegar ao local, hoje, de canoa em meia hora, imagine para os bandeirantes que sentiam o faro de "missões" a léguas de distância. Por isso, a missão adentrou o território espanhol buscando e por fim encontrando um bom local onde ela foi finalmente construída e onde esperava-se que prosperasse. O arquiteto da Missão foi o jesuíta espanhol Antonio Forcada. Forcada, contribuiu trazendo mais um detalhe para a missão de Jesús, a ex- Missão de Jesús del Monday. Forcada se inspirou na arquitetura árabe  a influência árabe espanhola, de sua experiência o que faz de Jesús a única Missão em que a arquitetura, em vez de barroca, é mourisca. 

 Iluminadas à noite 

A parede atrás do altar que ainda se conserva, iluminada com tecnologia moderna. Uma viagem no tempo.     

O ponto alto da visita noturna foi a projeção de videos sobre as antigas paredes segundo a tecnologia batizada de Mapping 3D. Quando Richard Gómez, o guia oficial convidou o grupo para andar em direção à igreja para ver a projeção, houve um segundo mágico em que, sem aviso, a parede atrás do altar parecia ter ganho vida. Parecia como se estivéssemos a ponto de entrar numa igreja histórica e ativa em qualquer lugar do mundo. Nesse um segundo foi possível cair a ficha de que esta igreja estava no meio da selva, a maioria dos fiéis era de nativos desta selva e que tudo tinha sido construído por eles, as pinturas, as estátuas, a música tudo era produzido, feito, imaginado, pensado, criado ali.   

A primeira vista da igreja com a parede na área do altar iluminada manda o visitante para centenas de anos de volta no tempo. Conduzindo o grupo, Lira Hein da equipe oficial do escritório da Senatur e o guia Mbya Luis Miguel Cabral  conversam com os viajantes do tempo em castelhano e guarani. Nas mãos, Lira Hein e Luis Miguel carregam uma luminária que aumenta o sentimento de havermos caído em algum lugar na viagem de volta aos início de nossa tentativa de criar um modo de vida que apesar dos pesares e afirmações contrárias era considerados justo. Como a missão, esse modo de vida "poderia ter sido" mas infelizmente não foi. Não posso deixar de pensar neste modo de vida como um "modo de vida_rãngue". É uma pena.  (Continuará)  

Nota:
Em português e espanhol para separar as sílabas de Tavarangue se faz assim: ta-va-ran-gue. Em guarani a separação se dá da seguinte forma: ta-va-rã-ngue. E não me pergunte por quê. 



quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Pirá Rendá um atrativo turístico que inclui aquário, museu e floresta reconstruída em São Cosme e Damião (PY)


Ranulfo Fletes: Pirá Rendá, o atrativo turístico criado por este senhor é uma utopia que deu certo, criada ao longo de 19 anos

Ainda sobre San Cosme y San Damián cidade certificada pela OMT como uma das 44 "Melhores Vilas Turísticas" escolhidas em em 2021 e anunciadas este ano, graças à sua Missão Jesuíta preservada, ter sido sede do primeiro Observatório Astronômico do Cone Sul e estar buscando colocar-se na rota de turismo e economia sustentável equilibrando passado, presente e futuro


No aquário principal

Aquários, oceanários e parques aquáticos são investimentos de capital intensivo e estão espalhados pelo mundo em destinos de turismo de massa. 

Não deixa de ser uma surpresa que na lista de atrativos de San Cosme, em Itapúa no Paraguai há um. Se chama Pira Rendá. "Pira" é peixe e "rendá" é lugar. O significado fica entre Lugar de Peixe e, na moral da história, "aquário".  A diferença entre o aquário de San Cosme e os outros aquários do mundo é que este foi idealizado, projetado e construído pelo engenheiro agrônomo Ranulfo Fletes, que entre outras experiências no currículo está ter sido vice-ministro do Meio Ambiente no Paraguai. 

"Isso aqui é uma utopia que nasceu 19 anos atrás quado comprei esse terreno", explica o dono do aquário Pira Renda ao receber o grupo de oito jornalistas de vários meios de imprensa paraguaios e no meio deles estava eu, de Foz do Iguaçu. "Esse terreno era uma pedreira e logo depois de comprar comecei a recuperar a terra", explica.


Aí começa o tour do Pirá Rendá. Logo na entrada há uma pequena piscina tipo laguinho onde se vê tartarugas. "Esta é uma tartaruga-cobra. Ela tem um pescoço enorme que permite defender-se de qualquer coisa que a agarre", e continua não só explicando mas contando história e se divertindo com os visitantes. Logo vem pequenos mini bosques ricos em orquídeas, canteiros de bromélias e  árvores em crescimento. "Temos até chuva com arco-íris", avisa acionando um ferramenta que aciona um aspersor de orvalho. 

Antes de chegar ao aquário há o museu. Um museu pequeno mas sério com amostras de objetos que contam a história do dia a dia da cidade, obras de arte atuais, ferramentas e ate uma lança do período de guerras e conflitos. 

O aquário tem alguns tanques com diversos exemplares de peixes como pacu, piranha, dourado (piraju) e até uma carpa que retribui o olhar do visitante.   

Embora a visita durante viagens de familiarização sejam relâmpago, há tempo para conhecer as várias cabanas que podem alojar até 40 pessoas no total. Uma delas é especial. "Quero mostrar a cabana feita com garrafas. Se não tivesse sido reutilizadas onde estariam agora?", pergunta. 

Maureen Gauto do Programa "Sombrero Viajero" na sacada do chalé: Vista maravilhosa do rio Paraná lá em baixo    


Garafas em pé e nichos trabalhado. Parede frontal do chalé 



Jornalista Karen Martínez de Assunção testa sofá da sala-de-estar do chalé. Paredes e piso também feitas de garrafas 

Foram usadas 3,900 garrafas. No primeiro andar da cabana tipo chalé as garrafas são de fundo quadrado. Na área de estar são de fundo redondo. De qualquer lugar do terreno incluindo as cabanas se vê o rio Paraná lá embaixo. "Ao contrário da Itaipu a gente não diz Lago de Yacyreta. às vezes dizemos "embalse", mas geralmente é somente Rio Paraná.   

Apontando para a imensidão do "embalse" ele lembra que o complexo de ilhas encabeçado peças ilhas de Yacyretá e Apipe tinham cerca 180 ilhas. 

Durante a conversa, eu disse ao engenheiro que ele me lembrava Moisés Bertoni. E ele reagiu: "Bertoni sempre foi minha inspiração", contou. E confidenciou uma experiência. "Quando eu trabalhava no serviço público, fiz um levantamento dos solos do Paraguai em parceria com o Instituto Alemão de Geodésia usando instrumentos modernos e laboratórios e o resultado foi igual às conclusões Bertoni que só utilizava amostras que os nativos traziam. Não foi parecido, foi igual", concluiu.

Ativo na sociedade onde ajudou fundar e é membro do Conselho Distrital de Turismo, continua trabalhando ára que a tradição da vila de San Cosme y Damián e o Rio Paraná receber grandes cientistas como Buenaventura Suárez, Moisés Bertoni e Curt Schrottky (este último não muito conhecido nas Três Fronteiras).

Ranulfo Fletes no Museu do Aquário Pirá Rendá. O quadro na parede é dele. O que há de raro nele? 
("Um peixe nada na direção contrária dos outros. Nem todo mundo pensa igual", responde)



Nota   

San Cosme y Damián tem sete pousadas turísticas. Além dos chalés do Aquário Pirá Rendá. Não é mais necessário que o visitante chegue correndo e saia voando sem entender o local, seu patrimônio, sua proposta e ver sua gente. A cidadezinha "Melhor Vila Turística" pode ser melhor aproveitada também pelo turismo que atende a nichos como observadores de pássaros, amantes de astronomia (a Argentina tem um grupo chamado Turismo de Estrelas), a amantes de história, turismo religioso quer como fiel ou interessados em história da religião, neste caso a história das fascinantes reduções (missões) jesuíticas, a proposta da Congregação de Jesus e ver como a história se reflete hoje. O meu entrevistado favorito disse também que um público que pode ganhar muito com a visita é o dos ligados nas energias. 


Pendentes com quartzo da comunidade Pindó

"Isso é um vortex de energia", disse lembrando que a geologia do local já cristalina ou rica em quartzo. Os mbya (guarani) da comunidade ou Tekoa chamada Pindó, oferece artesanato que inclui as pedras de quartzo. Fica a sugestão.    


Nesta série de postagens faltam duas reduções:

1. Santísima Trinidad del Paraná 

2. Jesús de Tavarangue

* Pira Renda em guarani e no uso paraguaio não necessita de acento. Transcrevo em português como "Pirá Rendá" para não confundir a pronúncia.