sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Prefeito de Foz não quer pressa para definir destino de ossos do ossário

A imprensa já discutiu este assunto e eu não pretendo repeti-lo. O que eu quero é elogiar a preocupação do prefeito Reni Pereira com a frieza das propostas de incineração, cremação de ossos no ossário municipal. Me pareceram levianas certas propostas: passados três anos e não aparecendo o responsável os ossos serão doados para instituição de ensino; ou parafraseando, afirmando que os ossos do ossário serão cremados em três anos entre outras ideias light. Não estou sendo exato nas palavras. Gostei de ver o prefeito dizer que não concorda com o prazo para se livrar dos ossos de 15 mil, 20 mil iguaçuenses. Ele disse que vai reformular que não vai queimar e muito menos nesses prazos apressados e desrespeitosos.

Meus motivos para defender os ossos de nossos antepassados são muitos: religiosos, humanos, históricos e científicos. No sentido religioso, segundo as religiões de povos primitivos, deixo de fora a religião dos civilizados, o lugar onde estão os ossos é sagrado;os ossos são sagrados. Os motivos são humanos porque os ossos sustentaram um dia corpos de nossos conterrâneos, contemporâneos e co-cidadãos. Históricos porque, para mim, 20 mil esqueletos ósseos em um lugar é história. É como se eles pudessem falar e provar que existiram. Essa falta de solidariedade até no pós-morte físico me deixa triste. É científico, por fim, porque segundo a necessidade, um cientista quando treinado para isso, pode trazer a história das pessoas que um dia, na terra, os utilizaram como suporte e estrutura para manter seus corpos em pé. Os povos não-civilizados, ao contrário dos civilizados, se encantam ao pensar na beleza dessa estrutura óssea que nos mantém erguidos. Eu também.

Há na Argentina um escritor chamado Horacio Verbistky. Ele escreve livros-reportagem. Em um deles, o livro Hemisferio Derecho,  ele conta a história de Luis Adolfo Jaramillo, um chileno de Temuco que tocava órgão na igreja e estudava corte e costura por correspondência com o sonho de emigrar para Buenos Aires e ser "modista", costureiro famoso. Casou, concluiu o curso e veio para a capital argentina. Arranjou emprego na redondeza e terminou trabalhando em uma metalúrgica. Com o passar do tempo se matriculou no curso de música e se formou como bacharel em música mas não abandonou a profissãozinha de metalúrgico. Foi o fim dele. Como uma bacharel em música prefere ser metalúrgico? É comunista! No tempo da perseguição política contra sindicatos de esquerda, ele foi arrancado de casa na calada de uma noite e desapareceu. Foi enterrado, sem ninguém saber, em uma sepultura coletiva junto com mais 299 trabalhadores e lá, na sepultura coletiva permaneceu muitos anos até que a sepultura foi descoberta e o mundo se apavorou com a cena. Uma "patroller" retirou os ossos que foram levados para um ossário parecido com o nosso, descuidado e deprimente onde ossos de diferentes pessoas se misturaram.

Tudo perdido? Não! Entrou em cena a Equipe Argentina de Antropologia Forense - EAAF. Você já ouviu falar em antropologia forense?  A equipe da EAAF é única nas Américas; é segunda somente para a primeira que fica nos Estados Unidos. É a equipe do professor Clyde Snow, o fundador da disciplina. Para não ir muito longe passo para o final da história.

Dezessete anos após o sequestro, seguido de assassinato, todos os ossos de Luis Adolfo Jaramillo que haviam sido estudados pela EAAF, foram colocados em um caixão e entregue à família para um enterro digno no cemitério da cidade. Foram convidados amigos e colegas de trabalho. A esposa queria que eles dissessem quem foi Luis para que a filha dele, no dia do enterro com 17 anos soubesse quem foi o pai. "Não era um bandido e nem um terrorista". Os ossos de nosso ossário necessitam em primerio lugar, um abrigo decente. Eu disse em certo lugar que queria ir ao ossário e fui informado que seria impossível até porque o local tinha problemas com roedores. Fiquei chateado. Que roedores? Paca? Cotia? Capivara? Creio que não.

Lembrando da antropologia forense, volto à imagem dos ossos terem o que contar. E que morreram? Que doenças tiveram? Como era a nutrição? O bem-estar social? Eram homens? Mulheres? Trabalhadores braçais? Tiveram filhos? Quero ver um ossário decente em Foz do Iguaçu. O prefeito terá que lembrar que isso não dá votos. Mas quem sabe? Daí vêm as questões que também não dão votos, como crematório, novos cemitérios e uma política transparente sobre a morte e o morrer na Terra das Cataratas.              

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