sexta-feira, 8 de abril de 2016

A Mesquita Omar Ibn-Al-Khattab e a comunidade árabe

A Mesquita no Jardim Polo Centro. O terreno vazio, à esquerda, é ocupado hoje por um centro de eventos 
Esta nota foi publicada pela primeira vez em 2008 no blog Notas do Turismo. Muita coisa mudou. A visita à Mesquita está muito mais organizada. Há livros e folhetos gratuitos para quiser levar. Eles estão disponíveis em português, inglês, italiano e alemão (isso na última vez que passei no templo há poucos dias). Quem quiser pode adquirir uma Lembrança como xícaras, camisetas e chaveiros. Há véus (hijab) para mulheres visitantes. Esta postagem será atualizada (Jackson Lima)

A Mesquita branca que aparece no horizonte de Foz do Iguaçu, localizada no bairro Jardim Polo Centro, e vista de vários pontos da cidade, se chama Omar Ibn Al-Khattab. A maioria da literatura de divulgação turística chama-a somente de “Mesquita Muçulmana”. Muita gente na população local chama-a de “Igreja dos Árabes” e algumas publicações a chama simplesmente de “Mesquita que é parte da cultura árabe”.

Eu prefiro dar o nome como é: Mesquita Omar Ibn Al-Khattab. Evito dizer Mesquita Muçulmana porque toda mesquita é muçulmana. Não existe mesquita cristã. Quanto a dizer que a mesquita é da cultura árabe, isso também é desencaminhador. Nem todo árabe é muçulmano. Assim como nem todo muçulmano é árabe. A mesquita está aberta a todos os muçulmanos e isso inclui os indonésios, os maldivos, iranianos, filipinos, brasileiros, paraguaios.

É a mesma coisa que dizer que todo brasileiro é latino-americano. Mas todo latino-americano não é brasileiro. É preciso deixar claro que árabe aqui se refere somente aos povos que falam árabe nativamente não está atrelada à religião. O árabe é árabe mesmo que seja cristão. O Corão foi escrito em árabe. Assim o árabe é uma língua de valor excepcional para o islamismo ou para o mundo muçulmano, assim como é a língua através da qual o Ocidente teve acesso aos grandes filósofos gregos e de textos gregos, aramaico e outros idiomas antigos lá por volta do século 9 da era cristã.


Em construção
A língua árabe é um patrimônio da humanidade. Porém o islã não se limita ao povo de fala árabe. Ao visitar a Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, você estará conhecendo um lugar que é parte de uma família mundial. É parte da cultura mundial. 


Lançamento da Pedra Fundamental


O bairro Polo Centro ainda "rural" ao por do sol. Destaque para a mesquita ainda em construção, Foto de um (livro) Guia Japonês
A Mesquita em Foz do Iguaçu não tem como meta a conversão de brasileiros embora haja um esforço de esclarecimento, divulgação de ideias e incentivo ao conhecimento mútuo. Outra coisa interessante a dizer é que há mesquitas em todo o Brasil. No Paraná, há mesquitas também em Londrina, Maringá e Curitiba. Há mesquitas também em toda a América do Sul. Há outra Mesquita chamada Omar Ibn Al-Khattab na cidade de Maicao, departamento de La Guajira, Colômbia.

Em Foz do Iguaçu, a maioria dos “linguisticamente árabes” são de nacionalidade libanesa. Ou são filhos e netos de libaneses. Pode haver árabes de outras nacionalidades em número muito menor como marroquinos, tunisinos ou egípcios.
Quem foi Omar Ibn Al-Khattab?



Um pouco da História da Comunidade Árabe de Foz do Iguaçu

Este artigo do autor foi publicado na revista 100 Fronteiras há alguns anos. Agrego aqui para contar um pouco da história da comunidade árabe. (JL)
Anos 80 jornal Nosso Tempo Digital


Estima-se que a comunidade árabe de Foz do Iguaçu, predominantemente libanesa, esteja na casa das 12 mil pessoas. Mohamad Mahmoud Ismail do Centro Cultural Árabe Brasileiro, diz que há noticias de que desde os anos 30, comerciantes libaneses, especialmente os mascates, já “beliscavam” a praça de Foz do Iguaçu e aventuravam-se nas “obrages” da região. “Mas a partir dos anos 50, começaram a    estabecer-se na região”, conta Ismail que junto com com Menzer Osman, à frente da Associação Cultural Árabe-Brasileiro, começou a fazer um levantamento histórico e cultural da comuidade árabe de Foz do Iguaçu.

Na sala que funciona como a sede do Centro Cultural, as paredes estão cobertas de fotos e material de grande valor histórico e cultural cuja importância ultrapassa a fronteira da colônia. “Já pertence a toda a comunidade Iguaçuense e das Três Fronteiras”, explica Menzer Osman, lamentando que este ano não deu para expor na Fernatec – Feira local que celabra a diversidade cultural de Foz do Iguaçu e da Fronteira.

Entre as curiosidades estão o registro de nascimento da primeira criança que nasceu na “Colônia”. Foi uma menina: Florida Hassan El Nirssr no dia 27 de setembro de 1957. O primeiro casal a se casar na colônia árabe de Foz foi Ali Saïd Rahal e Leila Canan. Há ainda fotos, muitas fotos familiares e documentos como passaportes expedidos no Líbano.            

Uma das famílias mais antigas da Colônia árabe em Foz do Iguaçu é a família Barakat. “Meu avô, Mohamad Hussein Barakat imigrou para o Brasil em 1892” diz Mohamad Ibrahim Barakat, ex-vereador, ex-secretário da Indústria e Comércio na gestão do prefeito Harry Daijó. “Na época, o Líbano estava sob o domínio turco, sob o Império Otomano e os libaneses que saiam do Líbano viajavam com passaporte do Império Otomano ou turco. “Por isso até hoje, as pessoas chamam árabes em geral de turcos”, explicou Barakat.
       
O primeiro Barakat a vir para Foz do Iguaçu foi Ibrahim Mohamad Barakat. Ele subiu a abordo de um navio no Líbano no dia 20 de abril de 1950. Um mês depois desembarcou no Porto de Santos em São Paulo. Ibrahim subiu a Serra do Mar e se instalou precariamente em São Paulo. “Ficou mascateando com amigos no bairro de Jabaquara durante os primeiros meses”, contou. Em 1951 Ibrahim Barakat chegou a Foz do Iguaçu e se hospedou no Hotel Lamarque (que mais tarde pegou fogo, diz Mohamad Barakat, nosso entrevistado).   
“Meu pai contava que na época não havia confecções. O que havia eram cortes de tecido. Em duas ou três semanas ele vendeu tudo e assim ele continuou viajando entre São Paulo e Foz do Iguaçu. Em 1951, chegou meu irmão Adnan Barakat, falecido há quatro anos. “Meu pai nasceu em uma cidade libanesa chamada Balul. Minha mãe veio de Lala”, lembra Barakat e acrescenta “o núcleo da Colônia de Foz do Iguaçu é Balul e Lala, cidades localizadas no Vale do Bekaa”.

Segundo Barakat, “esse é o núcleo da Colônia de Foz pelo qual chegaram sobrenomes como Osman, Omairi, Rahal, Sleiman entre outros. “Todos de alguma maneira parentes, sobrinhos de pai ou de mãe” disse Barakat.  Depois a imigração se extendeu. Barakat cita um levantamento realizado por um professor do Centro Educacional Libanés del Paraguay em Ciudad del Este, que conclui que a Colônia Árabe nas Três Fronteiras hoje representa 180 cidades libanesas.          

A partir dos anos 60, a Colônia Árabe de Foz do Iguaçu deixou de ser unicamente libanesa. Yusef Nassar, nasceu em Jerusalém em 1939. “Na época a Palestina estava sob o domínio inglês e continuou assim até 1948 quando os ingleses se foram e o Estado de Israel foi criado”, esclarece Yusef, comerciante que chegou em Foz em 1960. “Eramos oito irmãos. Quatro homens e quatro mulheres. Primeiro viemos dois irmãos e depois mais dois. Depois disso veio o restante da família”, conta Yusef, pai de três filhas que nasceram aqui: Samyra, Soraya e Sumaya.        

Breve histórico da Colônia Árabe de Foz do Iguaçu

1892 – Passa pela fronteira primeiro árabe libanês que se tem noticia a caminho da Argentina
1930  Mascates e comerciantes começam a visitar Foz do Iguaçu
1950  Instalam-se, com suas famílias, primeiros imigrantes árabes
1957  Nasce em Foz o primeiro filho de árabe
1958  Fundada a Associação Cultural Sírio Brasileira de Foz do Iguaçu
1962  Fundado o Clube União Árabe de Foz do Iguaçu
1977  Lançada a 1ª Fartal. Participação da comunidade árabe é marcante
1980  Fundada a Sociedade Árabe Palestina Brasileira
1981  Funda-se a Sociedade Beneficente Islâmica de Foz do Iguaçu
1981  Funda-se o Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu
1981  Lançada Pedra Inicial da Mesquita Omar Ibn El Khatab
1982 Começa a funcionar a Escola Árabe Brasileira usando instalações do Colégio Estadual Mosenhor Guilherme.
1986 Lança-se a 1ª FERNATEC – Feira das Nações, Artesanato, Comércio e Turismo de Foz do Iguaçu
1994  Fundado o Lar Druzo Brasileiro de Foz do Iguaçu
1996  Inaugura-se a Sede da Escola Árabe Brasileira
1998  Fundada a Associação Beneficente Árabe Brasil
1999  Fundada a Igreja Evangélica Árabe Brasileira
2001  Inaugurada a Escola Libanesa Brasileira, primeira no Brasil com a língua árabe como matéria curricular

Nota:

Foz do Iguaçu tem ainda a Mesquita Husseniya localizada na mesma região. Ciudad del Este também possui mesquitas. As escolas progrediram e já oferecem o ensino médio completo. Estamos atualizando.

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