sexta-feira, 23 de março de 2007

Museu Bertoni. Mas quem foi mesmo Bertoni?



Fotos: 1) Moisés Bertoni com Dona Eugenia e parte da família. 2) Sala onde ele trabalhava hoje parte do Museu Bertoni

Se você der uma olhada na literatura turística de Foz do Iguaçu, primeiramente e no restante da Tríplice Fronteira, 'segundamente', é possível que veja mencionar um lugar chamado Museu Bertoni. Assim, citado rapidamente como se fosse uma jabá sem sal. Esta nota é uma recomendação para que você visite o tal de Museu Bertoni, mas antes se descontamine da megalomania brasileira para aceitar o que vai ver. É coisa simples. O tal de Museu Bertoni é a metade do nome da coisa. O nome completo é Monumento Científico y Natural Nacional Moisés Bertoni.

Agora sabendo o nome real, você pode se empolgar um pouco. Monumento Científico é uma categoria dentro da Administração de Parques Nacionais (APN) do Paraguai e a casinha é parte de uma reserva de alguns (100) hectares que protege o pouco que restou após a invasão gaúcho-brasileira da soja. Mas o importante é a casa. Uma casinha de madeira, onde morou um senhor com uma mulher e 13 filhos. A casa-museu é tudo que restou da antiga Colônia Guillerme Tell (12.500 hectares) encabeçada por Moisés Bertoni e de um sonho de justiça que se foi. Mas por que Bertoni é interessante?

Beertoni se chamava Mosè Giacomo Bertoni filho de Ambrogio Bertoni e Eugenia Rossetti. Nasceu em Lottigna, Vale de Blenio, no cantão suíço de fala italiana do Ticino. Muito inteligente. Estudou lei, mas se interessou por biologia, botânica, meteorologia, agricultura, zoologia, antropologia, mitologia, cultura nativa (na Suíça escreveu um livro sobre os povos pagãos do Vale do Blenio) e muito mais (E deixou obras sobre tudo isso). Em 1884,já adulto e casado, Bertoni embarca para a América. Segundo Peter Schrembs, um estudioso de Bertoni lá do Ticino, na despedida, Bertoni anunciou que se afastava para sempre do lixo que era a Europa. Bertoni não era um colono comum - como a grande maioria. Na bagagem mental, ele carregava um sonho de criar um colônia exemplo para o mundo: talvez anárquica, talvêz comunista, socialista. No fim ele trouxe uma utopia.

Uma coisa interessante: o Paraguai nos anos 1800, graças à fama do experimentos sociais dos jesuitas, atraiu muita gente assim. William Lane e seus seguidores chegaram ao Paraguai para fundar um colônia econômica-politica e socialmente exemplar. E fundou: se chamava Nueva Australia.

Bernhard Foster e sua mulher Elisabeth Foster-Nietzche (irmã do filósofo Friedrich Nietzche) vieram para fundar a colônia Nueva Germania. A colônia de Forster era utopicamente racista sonhava com um mundo sem miscigenação e eugênico (raça perfeita). Foster se suicidou e não viu o sonho racista dele se realizar - ainda bem para mim! Colônias com fins sociais utópicos pipocavam por toda a parte inclusive no Brasil Imperial onde, aqui no Paraná, se fundou a Colônia Cecília à convite de Dom Pedro II. Mas voltemos a Bertoni.


O que Bertoni era no sentido ideológico é complicado. Há quem diga que ele era anarquista. Mas o rótulo parece ser simples. Sabe-se que era amigo de Piotr Kropotkin (Já digo uma coisa sobre Koprotkin) e do geógrafo anarquista francês Eliseu Reclus. E no Paraguai, já naquela casinha, enquanto nasciam os filhos ele colocou nome de revolucionários em alguns deles. É o caso de Vera Zassoulich Bertoni e Sofia Perowskaja Bertoni.

As duas filhas ganharam nomes para homenagear a lembrança de Vera Ivanovna Zasulich e Sofia Lwowna Perowskaja, ambas revolucionárias marxistas russas. Um filho se chamou Linneo Bertoni - e lembra quem era Linneo? Foi Carlos Lineu (ou Carl von Linné ou ainda Carolus Linnaeus) cientista sueco que criou o sistema binominal de classificação científica. Quando Bertoni revelou para o mundo a existência da erva-açúcar ka'a he'e (em guarani - uma erva doce e que só não é produzida no Paraguai hoje, porque só Deus sabe por quê?)pelo método de Linneo a planta ficou batizada como Stevia rebaudiana. Rebaudi era tanto o nome de solteira da mulher dele como era o nome de um naturalista europeu.

Como prometi antes, falemos da cabeça social de Bertoni. Primeiro, quando o comunismo marxista chegou ao poder na Russia, ele, pelas noticias que ouvuiu, se decepcionou. Kropotkin era um prinicipe e geógrafo de convicções anarquistas. Ele escreveu um livro chamado "Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução" (link é de versão internet, inglês) que era uma resposta ao evolucionismo social de Darwin. Darwin versus Kropotkin! Competição versus cooperação!

Família Bertoni
Mosé Giacomo Bertoni (*1857,Lottigna - +19/09/1929,Foz do Iguaçu)
Pai: Ambrosio Bertoni
Mãe: Gioseppina Torreani (Nonna [Vovó] Peppina)
Esposa: Eugenia Rebaudi Rossetti (Morreu em Encarnación, no dia 24/08/1929
Filhos que embarcaram com Bertoni no navio Nord America em 1884:
Reto Divicone
Arnaldo de Winkelried
Wera Zasulich
Sofia Lwowna Perowskaja
Inés (Morre em 1886 em Yabebiry, Misiones, Argentina)

Filhos nascidos na América do Sul
Moisés Santiago Bertoni (Yabebiry)
Aurora Margarita (Yaguarasapá, Paraguai)
Guillermo Tell (Yaguarasapá, Paraguai)
Walter Fürst (Colônia Guillermo Tell)
Werner Stauffacher (Colônia Guillermo Tell)
Aristóteles (Colônia Guillermo Tell)
Linneo Carlos

Obs.: esta faltando um nome, vou procurar...

Atenção! Atualizo hoje, 10 de fevereiro de 2009. Já descobri o o nome que faltava como mencionei acima. O nome é Inês. A caçula de Bertoni nascida já em Puerto Bertoni. Bertoni deu à caçula o nome de Inês a filha suiça que morreu antes da família deixar a Argentina - foi uma homenagem a Inés. Recentemente, façando uma reportagem para a Revista 100 Fronteiras, descobri uma bisneta de Bertoni e ela me deu os detalhes. Logo falo mais!

Um comentário:

cobforgs disse...

Com a possibilidade do relançamento da Associação Internacional dos Trabalhadores nas Americas, com data a ser proposta (inicialmente para dezembro de 2008 no Brasil), consideramos importante dar conhecimento ao mundo europeu dados e data marcantes de acontecimentos locais.
O passado brasileiro é rico nessa tendencia, principalmente junto a Confederação Operaria Brasileira (1906) e a Federação Operaria do Paraná.
Acredito que o referencial levantado por vc soma ao da Colonia Cecilia e assim como a outros pontos e eventos que consideramos marcantes para o conhecimento público.

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