domingo, 16 de agosto de 2026

Qual diabo é o da Garganta do Diabo / Mba'e aña piko pe oĩva Garganta del Diablo-pe? Segunda Parte

Ilustração de Paul Gustave Doré(1832 - 1883) para a Divina Comédia
de Dante Allighieri (1265 - 1321)

☝️Não é este! ☝️

Repito a pergunta do título: Qual diabo é o da Garganta do Diabo? Já digo na primeira linha que não é o da primeira ilustração obra do ilustrador e desenhista francês Paul Gustave Doré para uma edição da obra de Dante Alighieri.  

O diabo da Garganta do Diabo é mais esse veadinho branco de olhos vermelhos que pode brilhar de noite e botar para correr gente que entra na selva, floresta ou bosque para maltratar animais. Pode ser em rios e lagos onde pescadores abusam na quantidade de peixes pescados.

👇 É mais este 👇
       

Aña / Añanga 
Anhá / Anhangá


A imagem abaixo foi recortada do Dicionário Histórico de Palavras Portuguesas de Origem Tupi*, do filólogo Antônio Geraldo da Cunha Editora Mlehoramentos   

Palavra Anhangá
* 5. ed. São Paulo, SP: Companhia Melhoramentos; Brasília, DF: Ed. UnB, 1999
** Veja abaixo nota sobre a afirmação "os jesuítas deturparam a palavra original"



Outros Exemplos de lugares brasileiros com nomes derivados de anha e anhangá são encontrados em São Paulo como o Vale do Anhangabaú, um distrito da cidade, uma universidade e o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva.   

O moderno Vale do Anhagabaú está em cima do Rio, Riacho, Ribeirão Ananhagabaú. O pobre rio corre debaixo do concreto desde 1906 quando foi canalizado. O paulista não vê o pobre córrego há mais de 100 anos favorecendo o nascimento de uma espécie de "ateísmo fluvial". Eu não acredito que exista um rio chamado Anhangabaú. É preciso fé para acreditar na existência do Anhagabaú.  A grafia do guarani me parece mais fiel e me parece ser: añangavay (Añangava-y). 

Se a perda de um rio só já dói. Imagine a bacia inteira. Menciona-se que o rio Anhagabaú nasce no encontro das águas do Ribeirão Itororó com o Córrego Saracura e vai desaguar no rio Tamanduateí cujas águas um dia chegarão ao Rio Paraná / Lago de Itaipu entre Brasil e Paraguai via Rio Tietê. 

Órfãos do Itororó 
Note que o Itororó é afluente do Anhangabaú e consequentemente está canalizado debaixo de São Paulo. Na prática, ninguém vê o Itororó faz tempo. Mas a memória dele foi preservada no folclore brasileiro por meio de uma Cantiga de Roda misturada com canção de ninar que diz em parte: Fui no Itororó beber água, não achei. Parece profético, não dá para achar mesmo o Itororó. Será que falharam os añanguéra (os añás / anhás)? 

O que é itororó
Não há segredo sobre o o significado de Itororó, cujo significado tupi no Brasil foi perdido. No Paraguai, País onde o guarani é língua oficial, Ytororo ou Ychororõ significa cachoeira, um salto de água. As Cataratas do Iguaçu é uma Chororõ - Chororõ Yguasu.


Assim, o Diabo da Garganta do Diabo não é o diabo teológico aquele que inspirou o ilustrador francês a criar o diabo que aparece no topo desta postagem. Mas, toda essa conversa sobre o diabo não termina aqui. As raízes da palavra em grego, igual às raízes tupi-guarani não apontam exatamente para um Bicho Ruim universal. Até a palavra "demônio" não tinha significado "ruim". Mas isso será tema de outra postagem.

O Diabo da Garganta do Diabo é um ou muitos anhás, seres que protegem a natureza, os animais, floresta, (flora e fauna) e as pessoas que se encontram na Natureza especialmente inocentes, crianças, jovens, adultos bem intencionados que de outro modo seriam vítimas de alguma força da natureza como um salto d'água surpresa, águas perigosas de um rio ou mar e até de encontro desavisado com um animal que está em alerta por ter filhotes nos ninhos. 

Nesta série sobre as forças protetoras da natureza no âmbito dos espíritos da natureza, contarei sobre algumas ocasiões em que um anhá / aña me protegeu já que o que eu mais fiz na vida foi "besteira" e é o que me faz ter certeza de que estou vivo por milagre. 

Agora sim: o Diabo judeo-cristão-islâmico
Diabo é uma palavra grega (que chique!) Se escreve assim: "Διάβολος" transliterada como Diávolos, Como esta discussão é etimológica E NÃO TEOLÓGICA vamos dividir a palavra. 

Ela é formada pelo prefixo Διά (diá) que significa "através". A palavra exige a presença de duas coisas como outros exemplos vão mostrar. A segunda parte da palavra é  "βολος" (vólos) vem do verbo grego "Vallein" cuja  primeira pessoa é "diavállo" (διαβάλλω) que significa "dividir", "atravessar". Ganhou o sentido, conceito, a imagem, o símbolo de "caluniador" ou "causador de divisão".  Está explicada etimologicamente a função do Diabo.    

Todo aquele que causa divisão está conjugando este verbo. 
Com o encontro do prefixo Diá + Vallein,  todo aquele que causa "divisão", todos aqueles que dividem esta conjugando este verbo. Vamos, ENTÃO, vamos aprender a conjugar o verbo "diavállo" nas primeiras quatro pessoas do presente:

γὼ διαβάλλω / egó diavállo (eu calunio / atravesso / divido) 

σὺ διαβάλλεις / Si diaválleis (tu calunias, atravessas, divides)

//τὸ διαβάλλει / ó, i, tò diavállei  (ele/ela calunia, atravessa, divide)

μεῖς διαβάλλομεν / imís diavállomen (nós caluniamos, atravessamos, dividimos)


Conclusão**

Nem em grego antigo nem em línguas tupi-guarani como o tupi antigo ou o guarani, a palavra Aña / Anhá traz a imagem de um ser absolutamente maligno. Na afirmação do texto da imagem do Dicionário histórico, como em outras fontes brasileiras, acusa-se os jesuítas de terem deturpado o sentido original da palavra. A "deturpação" era de se esperar. Não só os jesuítas como em toda tarefa de tradução os tradutores de todas as missões e religiões  têm lançado mão do recurso de criar novos significados ou neologismos para harmonizar ideias e conceitos. 

Um bom exemplo é como os tradutores da Bíblia tentaram traduzir palavras como ovelha, pastor, pão, trigo, joio, para línguas originais da Groelândia, Nova Guiné, Paraguai, Gran Chaco ou da Amazônia. 

Para encerrar, apresento uma lista de palavras formada com o prefixo "diá" +  alguma palavra. 

Diácono: servidor que ajuda a comunidade através do serviço (dia + konein

Diáspora: dispersão de povos religiosos pelo mundo (dia + speirein

Diabo: aquele que divide ou calunia (dia + ballein

Diálogo inter-religioso: conversa entre diferentes fés (dia + logos

Diálogo: conversa através da fala / palavra (dia + logos

Diâmetro: linha que passa pelo meio de um círculo (dia + metron

Diagnóstico: conhecimento através de dados (dia + gnosis

Diafragma: membrana que separa o tórax do abdômen (dia + phragma

Diagonal: linha traçada de um canto a outro (dia + gonia

Diacrônico: que evolui através do tempo (dia + chronos

Diarreia: fluxo através do intestino (dia + rhein)




Fonte: Ateliê Amazônico



sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Qual diabo é o da Garganta do Diabo / Mba'e aña piko pe oĩva Garganta del Diablo-pe? Primeira Parte

 

A Garganta do Diabo / La Garganta del Diablo

Qual diabo é o da Garganta do Diabo? 1ª Entrega
Boa pergunta. Primeiro vamos saber como se diz Garganta do Diabo em diferentes idiomas. Recomendação: leia isso com cuidado. Esta abordagem é etimológica. Baseada na etimologia estudo histórico da origem das palavras. Já que a Garganta vai ficar sem visitantes até dezembro, falo dela para que ninguèm a esqueça

Português: Garganta do Diabo
Espanhol: Garganta del Diablo
Guarani: Aña Ahy'o
Italiano: Gola del Diavolo
Francês: Gorge du Diable
Alemão: Teufelsrachen
Inglês: Devil's Throat
Japonês: Akuma no Nodo (悪魔の喉)
Galego: Garganta do Diaño
Hebraico: Gron Hashtan גרון השטן
Árabe: Halaq al Shaytan حلق الشيطان
Russo: Glotika D'yavola Глотка дьявола
Ucraniano: Горло диявола / Horla Diavola
Polonês: Polonês: Gardziel Diabła

Nota
Em hebraico e árabe é possível identificar a palavra Satã. Garganta do Satanás. Respectivamente, Shtan e Shaytan.  Vem mais material no blog e no Youtube








quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Uma homenagem ao Frei Damião de Bozzano - In Memoriam


Frei Damião de Bozzano
1898 -1997
Hoje, 5 de agosto, é o 103º aniversário de sua ordenação presbiterial

O Frei Damião nasceu como Pio Giannotti na aldeia de Bozzano, município de Massarosa, Toscana, Itália. Morou no Brasil entre 1931 e 1997, quando morreu em Recife. Presto minha homenagem ao Frei Damião e aproveito para contar uma expriência minha ligada a ele por volta de 1974 - 1975.     

Aniversário: 300 anos da Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição

Apesar de não ter estudos convencionais completos já que era fruto de um "home schooling" primitivo, portanto sem certificação, fui convidado pelo pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Coruripe, Alagoas, para dar aulas de inglês a todas as turmas do período noturno do Colégio Nossa Senhora da Cpnceição. Caiu do céu, o convite que chegou a mim por meio do meu pai e por sua vez por meio de um chefe dele. O meu nível de inglês era muito alto e assim passei nas entrevistas. Eram outros tempos.

O meu pai aproveitou a ideia de me deportar de casa em Maceió para tentar me salvar de uma tristeza profunda. Eu havia me apaixonado por uma linda comtemporânea que ao mesmo tempo, com uma impressionante reciprocidade de sentimentos também havia se apaixonado por um amigo meu. Rapaz bonito. Tudo bem. 

Parti para Coruripe quase forçado no ônibus da Real Alagoas, levando uma bagagem resumida e meus 114 quilos que nunca recuperei. Minhas experiências com meus alunos e uma bicicleta Barra Forte da Monark me curaram.    

O meu chefe, o padre, pessoa muito decente abriu as portas do colégio. Além do colégio, o padre ainda formava parte da direção do cinema local além de cuidadr da paróquia. Logo, o padre e eu desenvolvemos uma amizade incondicional. Explico o incondicional: ele era padre e eu era Testemunha de Jeová. 

Uma das condições do meu pai para permitir que eu saisse de casa para trabalhar fora era que eu ajudasse a fundar a congregação local de minha cidadezinha natal. Uma outra vantagem era que eu estaria na casa do meu avô, Alípio e o meu avô não me deixaria fazer besteira. Além do meu avô e da minha avó, tinha também a Tia Nazaré que cuidava de mim como filho e a grande quantidade primos.  Estava em casa. 

No final o padre intercambiávmos alguns favores. Se houvese alguma coisa importante na minha congregação eu comunicava e ele autorizava que chegasse mais tarde. Às vezes, ele programava uma atividade na Igreja Matriz e decidia liberar as turmas das primeira aulas. Mas me pedia para que ajudasse a não deixar os alunos sumirem. Ele dizia que aluno solto nas ruas era perigoso. Eu aceitava e conseguia manter todo mundo junto na praça na frente do colégio. 

Um dia, morreu uma aluna que morava no bairro do Pontal do Coruripe. O pontal na época era longe e não havia meio de transporte. Assim eu me voluntariei para conduzir os alunos até a casa da aluna. Os alunos juraram obedecer e seguir minhas ordens.  Os pais preocupados autorizaram os filhos. O padre disse que ir comigo era quase igual a ir com os anjos. Confio no professor. Fomos. Deu tudo certo. Foi a melhor experiência para vida de muitos dos alunos. Pelo menos a minha foi. 

Um dia o padre me chama no seu escritório. E diz que precisa de minha ajuda. Coruripe estava no roteiro das Santas Missões Populares do Frei Damião e ele precisava da ajuda de toda a equipe do colégio, da paróquia e quem mais aparecesse. Havia uma outra professora de linha protestante que recusou o convite. Ela até aceitaria mas o marido, ficou furioso. Finalmente chegou o dia. As aulas seriam suspensas, mas a presença nas aulas não estava dispensada. 

Conversei com meus alunos e bolamos um plano para ajudar. Tenho dificuldade de lembrar da multidão que invadiu Coruripe. Note que a escola fica colada à praça e em uma das extermidades se nota uma ladeira. A quantidade de gente que descia aquela ladeira era imensa. Tivemos que colocar a mão na massa para o sucesso  da missão. Depois que Frei Damião foi embora, eu pedi autorização para chegar mais tarde me comprometendo em dar as últimas duas aulas. Imagine a minha alegria, quando eu termino de falar em nossa pequena tribuna, olho para a porta de entrada e vi que a classe inteira estava na frente do local de reunião para me acompanhar até a escola.        
    
A praça: centro da vida de Coruripe

A praça das Reuniões, o Colégio e a Matriz no Alto


Em certa ocasião desci aquela ladeira com a minha bicicleta monark sem freio, não consegui fazer a curva e caí na praça. Fiquei quieto no chão. Escutei um grito: O professor morreu! Foi um pouco antes da aula. Perda total da bicicleta.



 Nota: o motivo desta publicação homenagem ao Frei Damião,que esá em proceso de beatificação, foi que encontrar a foto dele que aparece acima, procurei informações sobre a visita dele à cided de Coruripe. A INteligência Artificial atrealada ao Google me respondeu taxativamente: "Não existe registro de nenhuma visita do Frei Damião a Coruripe, Alagoas". Agora existe!    

domingo, 2 de agosto de 2026

Imagens e um vídeo da Missa em memória e honra de Mark Lensink neste 1º de agosto de 2026



As fotos nesta postagem registram a Missa em memória e honra do jovem Mark Lensink que faleceu no acidente no Rio Iguaçu, não sei exatamente em que ponto do passeio via rio às Cataratas do Iguaçu. A missa foi rezada pelo Padre Carlos Sosa, na capela Nossa Senhora de Fátima, ao lado do Parque das Aves. 

A missa foi oficialmente uma iniciativa da Pastoral do Turismo (PASTUR) da Diocese de Foz do Iguaçu. Apesar das circunstâncias tristes que levaram à iniciativa, me senti feliz de ver na Capela representanes do ICMBio, do Macuco Safari, da empesa Aventura Náutica que faz passeio similar no lado argentino das Cataratas, uma presença solidária muito bonita, guias de turismo, representanres de empresas do turismo, autoridades como o secretário de Turismo Jin Petrycoski, o presidente do Sindetur, Fernando Martin e vários outros. 

Senti alegria de ver que na Pastoral do Turismo estão duas pessoas ligadas ao turismo. A coordenadora Rosilene Medeiros e a guia Vera Swiderski. Uma cidade turística necessita ter uma estrutura de atendimento e acolhimento ao turista. O turista em viagem é um peregrino. E acontecem situações, como esta, em que a sociedade local precisa ir além do contrato de serviço entre os viajantes e a cidade.

Da profundeza de minha tristeza senti alegria de poder ver os familiares de nosso "turista holandês". Isso me fez tomar coragem para me aproximar e trocar umas poucas palavras com cada um dos membros. 

Publico aqui um vídeo onde o guia que atendeu a família leu uma mensagem, em português e inglês, dos familiares para Foz do Iguaçu.  A mensagem fala do acolhimento, do apoio que receberam de cada uma das pessoas, em suas funções incluindo as autoridades e dizendo que foram abraçados.  

Eles estão retornando ou retornaram para casa sem o filho, o irmão, a noiva. Um abraço muito especial para essa família. Mas todos podem ter a certeza de que Mark não passou em Foz do Iguaçu como um desconhecido, como um anônimo. Ele ficou no coração de muita gente.    
            
Familiares de Mark Lensink



Capela Nossa Senhora de Fátima  

PASTUR - Turismo como acolhimento encontro entre pessoas e espiritualidade


Padre Carlos Sosa

Tradução abaixo ***


Familiares de Mark Lensink

Momento marcante


 O vídeo não está com boa qualidade de som. Pode ser assisitidoaqui na página o no YouTube 

***

Hij kwam als reiziger naar ons land en vond hier onverwachts zijn laatste rust. Al kenden wij hem niet, vandaag gedenken wij hem met eerbied en bidden wij voor hem. Moge hij rusten in Gods vred, ver van huis maar niet vergeten  

2

Ele veio ao nosso país como viajante e, inesperadamente, encontrou aqui o seu lugar de descanso final. Embora não o conhecêssemos, hoje o recordamos com reverência e rezamos por ele. Que ele descanse na paz de Deus — longe de casa, mas não esquecido.

Llegó a nuestro país como viajero y, de manera inesperada, encontró aquí su última morada. Aunque no le conocíamos, hoy le recordamos con reverencia y rezamos por él. Que descanse en la paz de Dios: lejos de casa, pero no olvidado.

He came to our country as a traveler and unexpectedly found his final resting place here. Though we did not know him, today we remember him with reverence and pray for him. May he rest in God’s peace—far from home, yet not forgotten.

5

Ou ñane retãme oviaháva ramo ha oñeha’arõ’ỹre ojuhu ko’ápe henda paha opytu’u haguã. Jepe ndajaikuaái kuri chupe, ko árape ñanemandu’a hese ñemomba’eguasúpe ha ñañembo’e hese. Topytu’u Ñandejára py’aguapýpe —mombyry hógagui, ha katu ndaha’éi tesaráipe.