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sábado, 15 de outubro de 2022

A Lenda de Naipi e Tarobá e a formação das Cataratas do Iguaçu (IV)

Tarobá (Itarová), Naipi e Mboi. Escultura  no Marco das Três Fronteiras  

Esta é uma outra versão da Lenda de Naipi e Tarobá encontrada no acervo da Biblioteca Púbica Elfrida Engel de Foz do Iguaçu, em material datilografado,sem data, que traz elementos novos como um lugar chamado Mba'everá Guasu 

Primeira página do relato

Isto foi há muito tempo...

Antes, muito antes mesmo, de quando os guaranis, lá pelos lados do atual Mato Grosso, também na fronteira do Paraguai, viviam na sua fabulosa cidade sagrada Mba'everá Guaçu".

Por aqui, pelas margens dos grandes rios, Paraná e Iguaçu, moravam os Caingangues, com seus toldos espalhados por léguas e léguas pelo sertão a dentro.

TUPÃ era o seu Deus Supremo, Criador de tudo que existia, e, Mboy

o deus serpente -, filho de Tupã, governava o mundo e era o protetor dos Caingangues.

Para obter as boas graças de Mboi, a enorme serpente que vivia no leito do rio Iguaçu, as diversas tribos Caingangues, uma em cada ano, ofereciam a mais bela de suas virgens que ficava entregue, exclusivamente, ao culto dessa divindade. Essas jovens índias eram as sacerdotizas de Mboi, e deviam conservar-se virgens, dedicando sua vida inteiramente ao poderoso deus-serpente.

O destemido Igobi era cacique de uma das tribos caingangues, que tinha suas tabas levantadas à beira do rio Iguaçu. Tinha ele uma filha, que era o orgulho não só de sua tribo, mas de toda a nação Caingangue. Naipi era o nome da filha de Igobi.

NAIPI, a jovem caingangue, era bela. Tão bela que as águas do Iguaçu -

paravam, quando nelas a jovem se mirava.

E um dia, quando Naipi se banhava nas límpidas águas do Iguaçu, Mboi - o todo poderoso viu-a do fundo do rio e desejou-a para o seu culto.

Por isso, naquele ano, coube a Igobi a honra de consagrar a sua própria filha Naipi ao Deus Mboi, filho de Tupã

Começaram então os preparativos para a grande festa. Os homens caçavam, pescavam e enfeitavam suas armas e apetrechos para os festejos. As mulheres preparavam as pinturas e os ingredientes para o "cauim" a ser distribuído fartamente no grande dia da consagração de Naipi.

Bem antes dêsse dia, começavam a chegar às tabas de Igobi os caingangues das outras tribos. E entre os primeiros, chegou Tarobá, jovem e forte, dos mais valentes entre os guerreiros de então.

Tarobá viu Naipi

Naipi viu Tarobá.

E, Tarobá e Naipi se amaram. foi maior que o seu amor. Nem a honra dos caingangues, nem o temor de Mboi, foi maior que o seu amor.

Enquanto os caingangues dormiam e antes que o luar clareasse as matas, Naipi e Tarobá se encontravam, longe do rio, para fugir aos olhos de Mboi. E falavam de seu grande amor e da sua grande mágoa, pela desdita de não se terem encontrado antes.

E não se conformando com a sua sorte, Eles resolveram mudá-la.

Segunda página do relato - CONTINUAÇÃO

Enfim chegou o dia da consagração-de-Naipi-ao-deus-serpente. Os caingangues deliraram no auge dos festejos, embriagados pelas danças  e pelo cauim. Tarobá e o pajé da tribo, também bebiam, dentro de suas  tabas. A serpente, cansada de olhar os folguedos dos índios recolhera-se no fundo do rio... 

Foi aí que Tarobá levou Naipi até a margem do Iguaçu. Embarcaram na piroga previamente preparada e fugiram pelo rio abaixo. 

Mas as fortes remadas de Tarobá acordaram Mboi, que levantou a cabeça enorme e os viu.

Viu-os e reconheceu Naipi, compreendendo logo o que acontecia. Estremeceu então de raiva, e saíram chamas de seus olhos. Rugiu por vingança,e lançou-se em perseguição aos fugitivos. Seu imenso corpo  movia-se velozmente porém Tarobá forte e ágil  levava a canoa em direção à correnteza que os lançaria em pouco tempo nas  águas do rio Paraná, onde o ódio de Mboi não poderia atingi-los.

O deus-serpente compreendeu a intenção de Tarobá, e compreendeu também que não poderia mais alcançar os fugitivos.

Tomado de intensa fúria por não poder castigar os que o haviam burlado Tarobá, por roubar-lhe a virgem, Naipi, por trair os votos feitos-, Mboi levantou seu corpo imenso e mergulhou-o violentamente nas águas do rio, afundando pela terra a dentro, e depois, retorceu os anéis de seu corpo de serpente, em tremendas "Convulsões". Deslocou-se a terra ante tão terrível movimento de Mboi e "abalou-se" o leito do rio numa enorme fenda por onde se lançaram as águas, formando assim as cataratas do Iguaçu.

Ao precipitarem-se os dois amantes nessas cataratas, Naipi foi transformada na insensível rocha, que o fogo subterrâneo caldea* sem cessar, como o amor caldeou seu coração enamorado, e desde então, as águas do grande rio banham-lhe o busto para apagar os ardores do seu amor sacrílego. Tarobá, o sedutor, foi convertido em árvore à beira do abismo, e condenado a contemplar a sua amada, sem poder beijá-la.

Aquela forma branca oculta pelo veú d'água aos olhos profanos, é Naipi, que vive, que ouve, que sente e estremece de desejos, mas que não pode falar.

E essa palmeira solitária, ali, no centro do rio, pertinho do abismo, é Tarobá, eternamente enamorado de Naipi, à qual envia o perfume de suas flores e os murmúrios de seu amor, quando a brisa agita a folhagem de sua fronde, mas que jamais poderá chegar ao regaço da jovem que o espera,

E Mboi, o deus-serpente?

Está lá embaixo, naquela gruta cuja entrada as águas e a espuma dos saltos escondem. Vingativo, Mboi espreita incessantemente as duas vítimas e vela para que nunca mais possam elas realizar o seu sonho de amor.

E era assim que os Caingangues diziam que surgiram as

"CATARATAS DO IGUAÇU


NOTAS:

Que cidade (mítica) é essa que se chamava Mba'everá Guasu no Mato Grosso?

Interessante o uso da palavra (verbo) caldear que significa: tornar incandescente ou maleável, fazer ficar em brasa.

M'Boy = Mboi (no guarani não se separa o M do B. A palavra termina em "i".

Cauim - uma bebida feita a partir da mandioca fermentada. Kaguy, em guarani.

Caingangues? Eis a questão! Toda a narração faz-nos sentir em um ambiente guarani. Naipi, Tarobá, Mboi, Tupã. É urgente esclarecer por que a inclusão dos caigangues nessa história. Convido caingangues e guaranis para a conversa.   

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Lenda das Cataratas - uma versão argentina na qual Naipi e Tarobá são guaranis

 

" ... cada vez que um arco-íris aparece no horizonte, significa que Tarobá e Naipí voltam a se juntar". Jornalistas de Foz debaixo do arco-iris de Naipi e Tarobá

Esta é mais uma versão da lenda de Naipi e Tarobá coletada pelo Blog de Foz. Um destaque especial desta versão é que os habitantes eram guarani 


Conta a lenda  que faz muitos anos habitava o rio Iguaçu uma serpente gigante e malvada chamada Mboi*. Era tão monstruosa e egoísta que exigia uma oferenda de todos os povos que viviam no entorno desse rio de "água grande". Os habitantes Guarani tinham que sacrificar uma linda donzela uma vez por ano e dar a ela. Eles tinham que jogá-la no rio para que o animal não lançasse suas terríveis maldições sobre eles.

Para esta cerimônia foram convidados todos os membros das tribos daquela origem, pois o rio era tão caudaloso que permitia o desenvolvimento de várias.

Foi assim que em certo ano uma donzela "aborígene" de cabelos longo chamada Naipí foi escolhida para ser dada em sacrifício. Ao mesmo tempo, chegou à frente de sua tribo um jovem cacique chamado Tarobá. 

O jovem valente, ao conhecer Naipí, ficou apaixonado. E tão grande foi seu amor que Tarobá se rebelou contra os anciãos da tribo. Desesperadamente, tratou de convencer a não sacrificar Naipí. Porém todo esforço foi em vão.  O temor que o povo sentia do monstro do rio era maior do que os apelos sinceros de Tarobá.

Então para salvar Naipi na noite véspera do sacrifício, o jovem cacique levou Naipí até sua canoa e tentaram escapar pelo rio. Nesse momento, Mboi, que via tudo, ficou furiosa e com seu lombo partiu o leito do rio. 

Desta maneira se formaram as Cataratas, onde os namorados terminaram atrapados. Como se isso não fosse suficiente, a cobra cruel decidiu separar os casal para sempre. Converteu Tarobá em árvores, esses que até hoje se pode ver na parte superior desta paisagem. Ao passo que Naipi foi transformada nas poderosas quedas d'água das Cataratas.

Diz a lenda que Mboi segue submersa na Garganta do Diabo, vigiando para que os enamorados não voltem a se reunir. Contam que cada vez que um arco-íris aparece no horizonte, significa que Tarobá e Naipí voltam a se juntar pelos menos enquanto durem essas luzes fantásticas no céu.


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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

O Pai da Lenda das Cataratas no Brasil ou a lenda da Lenda das Cataratas (I)

 Introdução 

Discutindo a Lenda das Cataratas - Primeira Parte


Como o senhor descobriu a Lenda das Cataratas?

O empresário Laurindo Ortega, falecido aos 86 anos em 2021, tem uma cadeira cativa como imortal na história de Foz do Iguaçu por vários motivos. Ele teve o primeiro registro de Agente de Viagens emitido pela Embratur em Foz do Iguaçu; ele construiu um hotel que embora tenha mudado de nome continua servindo a cidade; atendeu a milhares de pessoas com sua estrutura que incluiu presidentes, atores, autoridades e celebridades. Com estes exemplos ele deixa um legado material importante.
Aqui a gente diz Tarobá

Mas hoje o Blog de Foz quer trazer à atenção um novo fato. Uma contribuição imaterial do empresário que é maior do que rudo que ele realizou. Estamos falando da Lenda das Cataratas. 
Ele mesmo diz, em uma entrevista para um documentário produzido para celebrar os 100 anos de Foz do Iguaçu: "Eu sou o pai da Lenda das Cataratas no Brasil".    
O que segue abaixo é uma degravação (ou transcrição) das palavras de Ortega no vídeo. Ortega começa falar após a pergunta de uma criança (na época). A pergunta foi: Como o senhor descobriu a Lenda das Cataratas?

Laurindo Ortega - A Lenda da Lenda
Ortega responde:

- Eu sempre fui um cabeça aberta. Tinha um "bugrão" lá, um índio que era um contador de madeira na serraria, e o índio escrevia. Aí eu olho leio assim tá-ta-tá: Lenda de Naipi e Tarobá. Eu sou o pai da lenda aqui no Brasil, a Lenda das Cataratas.

Que acontece? Eu peguei aquele caderno e guardei ... pedi pra minha irmã me dá (e ela disse) não, pode levar. Depois eu saí, fui para ... pela segunda vez...que terminou os negócios do meu pai lá. Eu trabalhava no mato.  ... aí conversando com uns 30 índios  que trabalhavam conosco cortando madeira, fazendo estradinhas. Daí o cacique contava umas histórias, contou da guerra do Paraguai. ... coisa mais antiga? Ah não a mais antiga é a lenda de Naipi e Tarobá - aqui nós falamos Tarobá, lá é Itarová, cara de pedra assim como nós falamos "esse cara é cara de pau", o índio, o paraguaio chama Itarová. O que acontece?

Ele começou a contar e não é possível! Aí eu fui ver quando vim aqui na Foz,ver aquele caderno e era exatamente a mesma história de Naipi e Tarobá. Digo que eu sou pai porque eu divulguei pra todo o lado. 

Notas

1) O Documentário Pioneiros foi realizado pela Vision Arts com orientação da Secretaria Municipal de Turismo e postado no Youtube pela Câmara Municipal de Foz do Iguaçu. O trecho da fala do empresário esta entre os minutos 19:19 e 20:49.

2) A questão do nome Tarobá ou Itarová é mencionada de passagem no meu livro Sete Arcos, Três Degraus,  página 39.