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domingo, 11 de dezembro de 2022

Jesús de Tavarãngue: era "para ter sido" uma cidade (capital) de todas as Missões jesuíticas

Richard Gómez recebe os visitantes em Jesús de Tavarangue 

 O Paraguai tem "sete ruínas" Jesuíticas. Três no departamento de Itapúa e quatro no departamento de Misiones. Não é Misiones, Argentina. O Paraguai também tem um departamento chamado Misiones. Das sete, só duas estão na lista da Unesco do Patrimônio Cultural Mundial: Jesús e Santísima Trinidad del Paraná. 

Das três que conheci junto com um grupo de jornalistas paraguaios convidados pela Secretaria Nacional de Turismo (SENATUR), a que mais me demanda esforço para escrever sobre ela é a que se chama Jesús de Tavarangué. Na viagem conhecemos Santísima Trinidad del Paraná, Jesús (na mesma noite) e San Cosme y San Damián, pela manhã do dia seguinte. 

Ainda no começo da viagem, antes de deixarmos a Ruta I que parte de Ciudad del Este em direção a Assunção e girar à esquerda para a Ruta 6 rumo a Encarnação, perguntei alguma coisa à turismóloga e coordenadora da viagem, Shirley Pedrozo, sobre as ruínas. Ela respondeu e acrescentou que a palavra "ruínas" não está mais em uso e disse por quê. Uma ruína se reduz a pedras e  está abandonada Já as missões que estávamos a caminho para conhecer são muito mais que isso. Elas contam uma história, dá para ver a história em sua silenciosa continuidade e algumas delas ainda são alvo de uso moderno. 

Entendida esta parte passei para outra e desta vez envolvendo outros jornalistas na conversa. Quiz saber o que significa o "rangué" de tavarangué. Expliquei que eu suspeitava que "rangué" quer dizer que deu errado? Que ao invés de uma coisa deu outra? Trazer o guarani à tona em uma conversa com paraguaios significa tocar em um assunto que é parte da alma do país. O guarani é falado e entendido por mais de 90% da população. A explicação começa do começo. 

Jesús, lembraram, foi construída para ser a futura capital de todas as missões. Para ser uma "tava" que quer dizer "cidade". Em guarani, a "futura cidade" seria tavarã (rã é uma partícula de futuro das coisas). Ou seja tava+rã. 

O guarani, em sua sabedoria, também tem uma partícula para o passado das coisas. É a partícula "Kue" que se escreve "ngue" depois de som nasal. É mole? O resultado é Tavarãngue! Explicou Shirley: "Jesús foi projetada para ser o centro de todos os povos jesuítas mas não foi concluída por causa da expulsão da congregação. Por isso o nome quer dizer  "cidade que iria ser mas não foi". Outra tradução desta vez em espanhol é "ciudad que hubiera sido". 

Jesús: Construída para ser o Centro de todos os 30 Povos Jesuítas das Missões (foto Wikipedia)



Alguma coisa bateu forte em mim e eu senti um arrepio geral nos braços. Isso acontece quando detecto sentimentos e energias complexas. Me maravilhei. 
Então Tavarangue não é nome qualquer para um lugar. Assim como Missão Jesus de Nazaré.  É o nome de uma tragédia, de uma realidade, de algo pesado na história das tentativas de colonização na América do Sul, da história humana. No dia seguinte quando finalmente chegamos a Jesús, Richard Gómez, que recepcionou o grupo acrescentou que o nome oficial da antiga redução é "Jesús, apelidada Tavarangué". Me liguei no "apelidada".     

Desembocadura do Rio Monday, primeiro local da Missão que então se chamou Jesús del Monday 


A segunda informação com carga emocional muito forte veio ainda do Richard Gómez, quando ele disse que Jesús foi estabelecida pela primeira vez em 1685  às margens do Rio Monday, próximo à desembocadura dele no Rio Paraná, abaixo do Salto Monday. Partindo do atual Marco das Três Fronteiras, descendo o rio Paraná, em menos de meia hora, a remo, chegaríamos à área da antiga redução. Se é fácil chegar ao local, hoje, de canoa em meia hora, imagine para os bandeirantes que sentiam o faro de "missões" a léguas de distância. Por isso, a missão adentrou o território espanhol buscando e por fim encontrando um bom local onde ela foi finalmente construída e onde esperava-se que prosperasse. O arquiteto da Missão foi o jesuíta espanhol Antonio Forcada. Forcada, contribuiu trazendo mais um detalhe para a missão de Jesús, a ex- Missão de Jesús del Monday. Forcada se inspirou na arquitetura árabe  a influência árabe espanhola, de sua experiência o que faz de Jesús a única Missão em que a arquitetura, em vez de barroca, é mourisca. 

 Iluminadas à noite 

A parede atrás do altar que ainda se conserva, iluminada com tecnologia moderna. Uma viagem no tempo.     

O ponto alto da visita noturna foi a projeção de videos sobre as antigas paredes segundo a tecnologia batizada de Mapping 3D. Quando Richard Gómez, o guia oficial convidou o grupo para andar em direção à igreja para ver a projeção, houve um segundo mágico em que, sem aviso, a parede atrás do altar parecia ter ganho vida. Parecia como se estivéssemos a ponto de entrar numa igreja histórica e ativa em qualquer lugar do mundo. Nesse um segundo foi possível cair a ficha de que esta igreja estava no meio da selva, a maioria dos fiéis era de nativos desta selva e que tudo tinha sido construído por eles, as pinturas, as estátuas, a música tudo era produzido, feito, imaginado, pensado, criado ali.   

A primeira vista da igreja com a parede na área do altar iluminada manda o visitante para centenas de anos de volta no tempo. Conduzindo o grupo, Lira Hein da equipe oficial do escritório da Senatur e o guia Mbya Luis Miguel Cabral  conversam com os viajantes do tempo em castelhano e guarani. Nas mãos, Lira Hein e Luis Miguel carregam uma luminária que aumenta o sentimento de havermos caído em algum lugar na viagem de volta aos início de nossa tentativa de criar um modo de vida que apesar dos pesares e afirmações contrárias era considerados justo. Como a missão, esse modo de vida "poderia ter sido" mas infelizmente não foi. Não posso deixar de pensar neste modo de vida como um "modo de vida_rãngue". É uma pena.  (Continuará)  

Nota:
Em português e espanhol para separar as sílabas de Tavarangue se faz assim: ta-va-ran-gue. Em guarani a separação se dá da seguinte forma: ta-va-rã-ngue. E não me pergunte por quê. 



sexta-feira, 25 de março de 2011

Unila lança Catedra Leon Cadogan presidida por Bartolomé Melià

"A cultura guarani será formalmente incorporada ao projeto da UNILA com a instalação, em abril, da cátedra História, Sociedade e Cultura Guarani, que terá como patrono o etnólogo León Cadogan ...". Pegue esse pedacinho de texto, cole-o no Google e voce vai ver a notícia inteira que saiu nos meios de comunicação da região. Não vou repetir. O que vou dizer é que finalmente algo começa a acontecer. Primeiro, a Cátedra da Unila vai homenagear um dos grandes nomes do Paraguai: Leon Cadogan. Paraguaio, filhos de australianos que vieram ao Paraguai na tentaiva de realizar um sonho socialista em forma de Colônia que se chamou Nova Austrália, Leon Cadogan conquistou um lugar entre os grandes estudiosos do Paraguai tipo como Moisés Bertoni. Cadogan lutou pelos indios guaranis e morre nas mãos da ditadura de Alfredo Stroessner possivelmente como resultado de tortura. A idéia da Colonização australiana foi uma furada. O líder da colônia, William Lane trouxe cerca de 300 pessoas. A utopia infelizmente era racista: nada de contato com álcool, população local, sexo com mulher de fora da colônia quer fosse paraguaia ou índia e nada de cachaça. Bem, foi pedir demais e a colônia faliu e os descendentes dos australianos se casaram e se misturaram com os paraguiaios. Daí entra, León Cadogan (foto) que foi muito além da mistura 'casamental'. Ele mergulhou no estudo das culturas nativas do Paraguai especialmente os mbya-guarani. Saúdo e tiro o chapeu para ele especialmente por causa deste livro que aparece (Acima) aqui nesta nota. O resto deixo para a Cátedra. Segunda coisa fantástica: a Cátedra Leon Cadogan foi proposta, implantada e materializada pela Diretoria Geral Paraguaia da Itaipu Binacional. No ano passado escutei colegas paraguaios dizer que a Unila iria colonizar a cabeça do paraguaio e outros latinos. Felizmente, o Paraguai toma a decisão correta e em vez de chorar contra a hegemonia cultural do Brasil na Unila, fez acontecer! Terceiro milagre: ver o padre Barto(lo)mé Melià em Foz de novo só que desta vez na Unila presidindo a cátedra. Bartomé é jesuita e manteve a tradição à ordem nosentido de ter se tornado um grande do guarani. É só esperar! Como participo da cátedra?

domingo, 17 de janeiro de 2010

Exemplo de Dignidade que vem da Miséria Absoluta


A ONU confirmou e nem era preciso. Os índios vivem no fundo, na profundeza do vale da pobreza. Aqui na fronteira há Mbya Guarani e Avá Guarani no lado paraguaio e no lado argentino. Foz do Iguaçu não tem índio. Foram tocados faz tempo. Mas seja onde for, eles vivem na parte mais profunda da pobreza. Esta postagem exige que voce assisita o vídeo acima de autoria do pessoal do jornal ABC Color de Asunción, Paraguai. Ele conta a história de um grupo de Mbyá Guarani que vive na região de Concepción também no Paraguai que fez noticia ao não aceitar a oferta de alguns quilos de carne doados pela família de Fidel Zavala por ordem do grupo guerrilheiro paraguaio que se chama Exército do Povo Paraguaio (EPP). Fidel Zavala estava sequestrado há mais de 80 dias quando veio ordem do EPP de matar seis bois e levá-los como presente ou doação às comunidades pobres. Em toda parte houve fiça para receber a carne que guerrilha doava através das vítimas. Estava tudo indo bem para o IBOPE dos guerilheiros. Ou quase tudo. Aí aparece o cacique mbya que diz Nâo! Não podemos receber a carne em solidariedade com a família da vítima e da vítima. E muito mais. Veja o vídeo!